A arte milenar de educar

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Vivian Wrona Vainzof

O que um mestre de Aikidô tem a dizer sobre educação? Muito mais do que eu podia imaginar e sou grata por esse encontro com José Bueno, ontem na Matutaí. Mas o encontro de verdade foi comigo mesma. A filosofia é acima de tudo uma descoberta de si.

Sendo os filhos nossos espelhos da alma, como não refletir sobre o que somos, o que pretendemos, a que pertencemos, o que nos motiva ou paralisa? Essa consciência soa como um chamado de paz interior que pode nos salvar dos embates diários. O que parece ser uma provocação, um problema, não poderia ser compreendido de um jeito diferente, se pudéssemos ampliar o olhar?

Ontem no grupo, perguntada sobre o que via na sua frente, uma mãe respondeu: “vejo você. Sua cara de bravo, suas mãos em garra, seus dentes à mostra”. Olhamos e vemos o óbvio. Ela não descreveu a sala ou mencionou as pessoas ali, porque aprendemos que as respostas são únicas, que as verdades são indiscutíveis. Mas o que está por trás das questões que nos desequilibram, que não estamos olhando? Ou na frente ou em todo o seu redor? E o que não estamos podendo ver? Preocupados em ser fortes e rígidos, de ter o controle de todas as situação, as vezes somos nós que ficamos aprisionados em padrões repetitivos.

No domingo passado, um grupo circulava pela Vila Mariana, num passeio do programa Rios e Ruas. No cruzamento, foram passando todos, mas quando metade das pessoas tinha atravessado a rua, o farol abriu. O instrutor se colocou diante do primeiro carro e pediu gentilmente que ele esperasse o restante, o que demorou alguns segundos. Sorriram cordialmente, o carro engatou e seguiu seu caminho. Atrás dele vinha outro que passou xingando, furioso, acelerou mostrando os dentes do motor. Possivelmente, demorou o dia todo para se pacificar, enquanto o grupo seguia alegre seu caminho de interesse e aprendizado. De qual lado preferimos estar? E quantas vezes somos receptores da energia que não nos pertence, só porque o natural do ser humano é reagir? Não seria possível filtrar, ponderar e agir numa condição sobre-humana de consciência, que favoreça a relação e a nós mesmos?

As saídas para as situações mais críticas, que convocam os nossos instintos mais primários, podem ser uma atitute que nunca experimentamos antes. São os “vazios” do Aikidô, os lugares que não visitamos por falta de conhecimento ou de coragem, mas onde moram as oportunidades. “Ostra feliz não faz pérola”, diz Rubem Alvez. É o desconforto e o sofrimento da ostra, que é invadida por um grão de areia, o que abre espaço para o movimento criativo, a transformação.

Nossos filhos são tanques de areia de oportunidades para nosso crescimento pessoal, ao mesmo tempo em que vamos os preparando para serem pérolas. Eles nos convidam o tempo todo a um encontro sobre humano. A mãe faixa preta é aquela que consegue se entregar de peito aberto mesmo quando o momento pede defesa; que pode experimentar mesmo aquilo que parece já conhecido; que pode propor parceria ao que supõe ser um embate.

As sílabas da palavra Aikidô devem ter sido inspiradas em alguma reza de mãe que suplicava baixinho: “Harmonia, Energia e Caminho”. Sabedorias tão fundamentais para a convivência, principalmente com os filhos, que deveriam ser repetidas como mantras pelas famílias, diariamente. Quanta harmonia não falta no desencontro das gerações, na comunicação apressada e rala entre as pessoas, na concorrência velada que nos rodeia? Quanta energia desperdiçamos preocupados em ter mais sucesso, em ter sempre razão, em ter, ter, ter mais do que ser. Mas não importa quão rápido se corre, quando não se vai em boa companhia ou direção, por isso é preciso ver bem o caminho.

O Aikidô não é uma luta porque não há um vencedor. Como a educação, deveria ser um encontro, onde o mais importante é reconhecer quem se apresenta a nós para criarmos juntos uma coreografia harmônica. “Para que as coisas impossíveis se tornem possíveis, as difíceis se tornem fáceis e as fáceis se tornem elegantes”, como aprendi com o mestre Bueno.