A Criança e o Museu

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Talita Pryngler

Neste fim de semana fomos à Pinacoteca do Estado de São Paulo que fica lá no centro da cidade, colado ao Parque da Luz e do Museu da Língua Portuguesa. Resolvemos ir de metrô, já que a Pinacoteca fica muito perto da estação Luz, pois estávamos com vontade de caminhar e sentir a cidade. Esse trajeto até o metrô já foi para as crianças um incrível programa. Andavam pelas calçadas inventando brincadeiras, pesquisando algumas flores e colhendo gravetos. Eu as observava, sentindo uma liberdade de turista, me relacionando com a cidade de uma maneira curiosa e leve, podendo redescobrir lugares e percursos pelos olhos delas.

A Pinacoteca é um lugar incrível! Sua arquitetura aconchegante guarda um ambiente iluminado, com pé direito alto e paredes de tijolos, um espaço lindo e inspirador. Logo na entrada fica o Octógono, um ambiente circular que serve de palco para instalações, esculturas e obras. Localizado no centro da Pinacoteca, geralmente é exposto ali uma obra que convida o público a vivenciar, tocar e interagir, desconstruindo a antiga imagem de que museus são para ver com os olhos e, por isso, não seria um lugar apropriado para crianças, que naturalmente “veem” com as mãos. Neste momento está lá a obra do artista Daniel Acosta intitulada: ROTORAMA - Sistema de Giroreciprocidade. Trata-se de uma instalação, onde uma plataforma circular grande e giratória, se desloca lentamente, convidando o público a entrar nela e sentir esse ritmo que de inicio parece quase imperceptível. Aos poucos, quando o ritmo interno do corpo se acalma, da para sentir a curiosa sensação de mover-se parado. Minha filha menor (3 anos) de início girava e se movimentava bem rápido, aos poucos foi se acalmando e se sentou ao meu lado observando as pessoas que caminhavam ou que estavam paradas fora da plataforma. A minha filha mais velha (6 anos), por estar muito interessada pelas letras, esperava ansiosa pela volta toda da plataforma (demorava 10 min) pois queria ver as letras divididas se juntarem, buscando descobrir se formavam alguma palavra.

Saímos desta instalação e ainda tínhamos pela frente a exposição “No subúrbio da modernidade – Di Cavalcanti 120 anos”. “Um dos mais importantes artistas do modernismo brasileiro, Emiliano Di Cavalcanti costumava figurar nas suas pinturas e desenhos: os bordeis, os bares, a zona portuária, o mangue, os morros cariocas, as rodas de samba e as festas populares – lugares e situações que são representados como espaços de prazer e descanso explica O curador José Augusto Ribeiro.

Antes de entrar, olhei para as meninas e expliquei que era um lugar onde não poderiam tocar nos quadros e nem falar alto respeitando as muitas outras pessoas que também estavam na sala. A pequena quis ficar no colo, olhar os quadros na mesma altura que eu. Meu marido logo se deu conta que o museu incentivava a visita e permanência das crianças pois havia em cada uma das salas um suporte dizendo: “atividades para famílias” com um cartaz onde a criança poderia segurar e realizar as atividades propostas: achar algumas figuras e formas nos quadros, observar se as pessoas estavam festejando, se era dia ou noite, convidando a criança a participar e analisar minuciosamente os detalhes da obra. Ela vibrava cada vez que cumpria uma atividade querendo ir explorar as outras salas. Foi maravilhoso perceber que é possível frequentar estes espaços com crianças dando a elas a oportunidade de vivenciarem à sua maneira o contato com a arte.

Levar as crianças no museu permite que elas compartilhem de um espaço expositivo podendo assim aprender a respeitar suas regras. Dessa forma também se inicia um diálogo sobre as sensações múltiplas que um trabalho artístico provoca em cada um. Pode-se contemplar a beleza e o silêncio, a alegria e a sensibilidade que está na obra e que ressoa em nós.

crédito: Eduardo Fraipont
crédito: Eduardo Fraipont

por Talita Pryngler em colunas, experiências.

Talita Pryngler é psicóloga (PUC-SP), psicanalista (Sedes Sapientiae) com especialização em educação de 0 a 3 anos (ISE - Vera Cruz) em desenvolvimento motor (Núcleo do Movimento - André Trindade) e Intervenção preciosíssima de bebês e seus pais (Instituto Langage). Idealizou e coordena o Espaço Bebê da Hebraica, é consultora na área desenvolvendo projetos para primeira infância e atende em consultório particular crianças, adolescentes e adultos. Atualmente integra o corpo de professores do instituto Gerar de psicologia perinatal. É mãe de duas meninas e adora o universo da infância.