Abraço de urso, beijo de borboleta

avatar de Luiza Gaia
Luiza Gaia

O corpo é a nossa morada, é ele que nos coloca no mundo e nos permite conversar, compreender e, especialmente, ser e estar nele. Na criança esta ideia do corpo que fala é ainda mais latente. Antes mesmo de balbuciar as primeiras palavras, os movimentos das crianças são interpretados como gestos pela cultura que tem no adulto, pai ou educador, o seu principal representante. Para cada movimentação infantil, uma interpretação e intenção é atribuída pelo adulto: “Quando ele abre a boquinha assim é porque esta com sono, já quando encolhe os bracinhos assim, certamente é cólica…” O adulto nomeia as sensações e os sentimentos das crianças ainda expressos pelo corpo.

Estas atitudes, muitas vezes instintivas do adulto, são fundamentais para a exploração e conhecimento do corpo, é assim, através do que nos conta a cultura de gestos e movimentos, que vamos nos apropriando e habitando esta nossa casa-corpo.

A criança que conhece intimamente seu corpo, que explora todas as sua possibilidades e limites (porque, sim, o corpo tem limites e é fundamental que os conheçamos) pode tudo com ele. E o que permite uma relação positiva, segura e profunda com o corpo são as experiências de afeto e carinho que experimentamos através dele. Um cafuné à noitinha, um segredinho ao pé do ouvido, uma cocegazinha gostosa, são oportunidades únicas de conexão e autoconhecimento entre pais e filhos.

Então, por que não inovar? Que tal trocar o habitual beijo de boa noite por um apertado abraço de urso? Ou o rotineiro bom dia por um divertido beijo de borboleta?

Gestos de carinho e cuidado que subvertem a monotonia cotidiana. Para dar um gotoso beijo de borboleta, por exemplo, e só encontrar cílios com cílios e piscar. Dá uma cocegazinha, que transborda em um gostoso sorriso. Já para dar abraço de urso e só aguçar a imaginação, pense em como deve ser aconchegante o encontro de dois grandes e peludos ursos, e agarre bem agarradinho o seu filhote! Pinceladas de criatividade e carinho, para aproximar os corpos de pais e filhos.

O toque de amor permite a criança vivenciar plenamente seu corpo-brinquedo e ter clareza quando pode abrir seu refugio para os outros e quando é preciso reservar-se. O corpo pode ser toca, esconderijo, ou palanque e palco, basta a gente querer.