Brincar livre é o melhor remédio

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Talita Pryngler

Ser criança é natural. Se observarmos uma criança saudável por alguns instantes, ela estará simplesmente brincando. O brincar é um gesto espontâneo, genuíno, tão próprio e necessário quanto comer, dormir e sonhar.

Mas hoje nas grandes cidades temos um imenso desafio, de garantir que as crianças brinquem livremente na natureza, com a natureza numa relação investigativa, guiada pelo corpo e confiança na vida, mesmo que aconteçam tropeços, ralados e roupas sujas de barro. A criança aprende primeiro através do corpo, e esses trajetos ela adquire desde bebê. Essa experiência é vital e completa, traz para ela uma sensação de conexão e pertencimento com ela mesma e com o ambiente. O impacto da falta de natureza para as crianças que vivem cercadas por carros, concreto, eletrônicos e brinquedos de plástico é enorme e vem sendo estudado por especialistas. Nós últimos anos tivemos um grande aumento dos “diagnósticos” infantis de hiperatividade, ansiedade, obesidade e depressão, são crianças hiper estimuladas mentalmente, mas que quase nada sabem de si e dos seus movimentos. Em muitos casos o melhor remédio seria mesmo brincar ao ar livre com liberdade e tempo ocioso.

Os parques públicos são uma boa alternativa para quem mora na cidade, são espaços democráticos, que garantem a diversidade e acesso a árvores, terra e até alguns animais. Em São Paulo, como na maioria das grandes cidades, há várias opções e hoje gostaria de falar um pouco sobre o Parque da Água Branca. Lá se pode viver diversas experiências interessantes, que eu poderia até escrever um tanto sobre cada uma delas. Quando vamos lá aos finais de semana, nosso roteiro sempre começa no café da manhã orgânico ao lado da feira também orgânica. As mesas ficam ao ar livre, algumas embaixo das árvores, onde aparecem frequentemente galos e galinhas sedentos por migalhas de pão. Depois de uma passada na feira seguimos o fluxo da curiosidade das nossas crianças que atualmente têm adorado visitar o aquário e o museologeo que ficam ali perto do parquinho. Quando elas eram menores passávamos nos brinquedos pagos que lembram muito os parquinhos das cidades do interior. É possível também ver os cavalos que ficam presos em baias e até mesmo pavões andando soltos pelo parque. Há quem reclame da quantidade de pombas e do aspecto rústico do parque, mas sinceramente acho que a “rusticidade” traz para a cidade um tom caipira, simples e natural como à infância pode ser.

Garantir que as crianças tenham acesso e que possam brincar na natureza (que não seja para elas apenas uma paisagem bonita) é tarefa tão ou mais importante quanto inglês, natação ou tecnologia! Sem ela perdemos em nós o que há de mais simples, belo e natural, a contemplação da vida.

Até as princesas precisam brincar e se sujar!
Até as princesas precisam brincar e se sujar!

por Talita Pryngler em colunas, experiências.

Talita Pryngler é psicóloga (PUC-SP), psicanalista (Sedes Sapientiae) com especialização em educação de 0 a 3 anos (ISE - Vera Cruz) em desenvolvimento motor (Núcleo do Movimento - André Trindade) e Intervenção preciosíssima de bebês e seus pais (Instituto Langage). Idealizou e coordena o Espaço Bebê da Hebraica, é consultora na área desenvolvendo projetos para primeira infância e atende em consultório particular crianças, adolescentes e adultos. Atualmente integra o corpo de professores do instituto Gerar de psicologia perinatal. É mãe de duas meninas e adora o universo da infância.