Criança que dá chilique é pleonasmo, mas há algo que podemos fazer

avatar de Daniela Degani
Daniela Degani

Você conhece alguma criança que nunca deu um chilique? Que nunca teimou em ir pro parquinho com a roupa mais bonita, nova e cara de seu guarda-roupa? É... aquela mesmo que você estava reservando pro Natal. Criança que nunca resolveu que só seria divertido brincar com o que estava na mão dos coleguinhas? Não… aquele carrinho super bacana dando sopa não servia, só o boneco do amigo que era legal e tinha que ser meu e tinha que ser agora! Pois é... quem nunca passou por situações desse tipo levante a mão. Não estou vendo nenhum dedo levantado rsrs

Crianças e chiliques andam de mãos dadas – e por muitos anos da infância de meus filhos parecia ser assim, sem que eu pudesse fazer nada (ou muito pouco) a respeito. Até que, na busca por um pouco de tranquilidade, esbarrei na meditação, e acabei descobrindo que mindfulness e neurociência também andam de mãos dadas. E essa combinação pode ser de grande ajuda na hora de lidar com aquela outra duplinha danada: crianças e seus chiliques.

A seguir, 3 dicas do neurocientista Dan Siegel, PhD para acalmar as crianças, usando neurociência e meditação:

  1. Num episódio emocional de uma criança, usar o discurso racional de cara pode não funcionar. Sim, parece absurdo, eu sei. Mas uma catatauzinha vestida de caipira aos prantos só porque a mãe não pintou um bigode nela (e no irmão sim, que injustiça!) deve ser acolhida e entendida antes de serem dadas explicações racionais. Isso porque, quando estamos sob efeito de uma emoção forte, a parte mais primitiva de nosso cérebro (a amigdala) “toma o controle” e é como que se desativasse a parte “pensante” do cérebro (o córtex pré-frontal). Argumentos racionais neste momento não vão funcionar porque a criança não vai nem ser capaz de processá-los. Ao abraçar a minha caipirinha incompreendida, dizer que entendia sua braveza, afinal de contas eu não havia perguntado a ela se queria pintinhas ou bigode, pude acalmá-la. E só depois, então, pudemos ter uma conversa sobre costumes da festa junina, homens e bigodes, etc.
  2. Quando a criança estiver conseguindo conversar, estimule seu lado lógico. Uma vez, um aluno chegou muito bravo para a aula de meditação, pois tinha tido uma discussão feia com sua mãe (a qual, claro, ele jurava ter razão). Fui ouvindo-o em sua braveza, fazendo poucos comentários. Quando senti que dava, comecei a fazer perguntas do tipo: onde eles estavam antes da briga, se foi antes ou depois do almoço, a ordem dos fatos que ele me contava. O que menos importava eram suas respostas, mas sim o estímulo que provocavam no lado esquerdo do cérebro, mais lógico e linear. Desta maneira, ajudamos a equilibrar o lado direito, mais emocional, e que tende a ser dominante nos momentos de chilique.
  3. Explique à criança que as emoções não são o problema. O problema é o que fazemos sob seu efeito. Todos nós somos capazes de entender a importância de se acalmar antes de fazer coisas que depois nos arrependemos. Alunos meus citam desde “para não bater no amiguinho” até “para não mandar whatsapp malcriado para a mãe”, dependendo da idade. Quanto desgaste podemos evitar com o simples parar e respirar, se acalmar, pensar melhor antes de agir! Ensine à criança algumas técnicas simples de respiração (veja minha coluna anterior) que ela pode usar para se acalmar da próxima vez que sentir raiva, medo, tristeza etc.

A neurociência parece explicar, cientificamente, o que os contemplativos, ao longo de milênios, sempre souberam: não importa o quão bagunçada seja nossa mente, não importa nem se somos adultos ou crianças, a meditação, o parar e silenciar, é um exercício incrível se o que buscamos é calma e equilíbrio emocional.

Para saber mais acesse mindkids.net .