Dançando a vida

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Vivian Wrona Vainzof

Nossas vivências como filhos iluminam ou escurecem nossa experiência como pais. Dão a nota e o tom da nossa dança da vida. De rostinho colado ou numa batida mais acelerada, quem nos cria vai conduzindo os nossos primeiros passos, vai dando o ritmo, a energia do que seremos. Um olhar profundo, de olho no olho, que nos vê por dentro, espelha a nossa existência e nos põe vivos no mundo. Um rodopio dá frio na barriga, amplia os sentidos, tira do chão sem tirar do eixo, e aterrisar dá impulso aos vôos da vida. E os inevitáveis pisões no pé, com riso e com choro, com dor e coragem, convidam a arriscar a criação de outros passos.

As marcas boas e más ficam armazenadas na cabeça e no corpo e tocam a valsa dos próximos bailes.

A psicanalista Lucia Rosenberg estuda e cuida dos vínculos familiares que plantamos e colhemos ao longo da vida. Ela vai falar sobre a melhor forma de tratar desse cultivo, no próximo encontro da Matutaí, como conta nessa entrevista:

  1. Qual o papel dos pais na promoção de um núcleo familiar seguro que estimule a formação pessoal e emocional dos filhos? O papel dos pais para a segurança emocional dos filhos é fundamental, é básico, mas depende do tipo de criação. Com carinho, atenção, paciência e curiosidade, formaremos indivíduos mais seguros, mais confiantes e, evidentemente, mais abertos, inclusive, para o outro. Os pais que temos não determinam quem a gente vai ser, mas eles influenciam muito. Quando falta suporte emocional ou afetivo, leva muito tempo para desconstruir o desafeto e construir relações mais afetuosas e toda a confiança interna.
  2. Qual o melhor caminho para estreitar laços de afeto e respeito em família? Essa relação nasce pronta ou precisa ser cuidadosamente construída no dia a dia? Sempre digo que intimidade não se inaugura. É uma coisa construída, sim, dia a dia. Tudo depende do interesse com que a gente escuta as demandas, presta a atenção nas necessidades, fica atenta às características individuais de cada filho. As histórias, os amigos, os problemas que, às vezes, para os pais parecem desimportantes, são a vida dos seus filhos. É preciso se deixar conhecer, contar sobre como foi nossa infância, juventude, isso também aumenta as possibilidades de identificação dos filhos com a gente. Temos que sair daquele papel engessado de pai e mãe e mostrar que somos pessoas com história, conquistas, traições, travessuras, medos, punições. Às vezes, a gente pode até compartilhar segredos com os filhos, isso ajuda a criar intimidade. Ser do mesmo sangue não basta para que o amor e a intimidade se instalem.
  3. De que forma os momentos em família, as brincadeiras e o lúdico podem ajudar a criar essa intimidade? Brincar com o filho é fundamental. Costumo dizer que brincar é coisa séria, por vários motivos. Ajudamos a estimular a imaginação deles e é uma ótima oportunidade de conhecer os personagens que eles criam. Esses personagens dizem muito sobre a criança. Toda vez que um super-herói ou um ser fantástico aparece na frente do pai e da mãe, se eles se permitem mergulhar na viagem do filho, descobrirão os poderes, os inimigos, as armas e os recursos que a criança cria para enfrentar diversas situações. Essas “viagens” duram uma eternidade, por mais que se passem apenas dez minutos… Brincar ensina muita coisa, por exemplo, a transmitir e a obedecer regras,a perceber que nem sempre somos hábeis para qualquer coisa, porque eles acham que os pais sempre sabem tudo. Os pais não sabem tudo. Na brincadeira, os filhos são muito melhores do que a gente. Nesses momentos, a assimetria que existe entre pai/mãe e filho não se anula, mas se alterna: é o filho que acaba ensinando para os pais. É uma grande aventura.
  4. Como lidar com a individualidade e personalidade de cada filho ao impor limites e regras? Temos que considerar a individualidade dos filhos sempre. Essa coisa de criar regras ajuda muito os pais na educação, mas quanto mais explicarmos para os filhos os porquês do “não” e do “sim”, mais criaremos intencionalidade, sentido, um significado mais fácil para cumprir o que está sendo combinado. Um filho que tem uma habilidade física maior vai conseguir pular aquele riozinho, já o outro que desenvolveu uma habilidade intelectual maior que a física, talvez não consiga. Temos que conhecer as características de cada um para poder saber o que vale, e o que não vale,para cada um. As regras servem para uma generalização dos “sins” e dos “nãos”, que economiza aos pais a tarefa de contextualizar e explicar. Mas acho que os pais não devem se furtar de nenhuma conversa com os filhos.
  5. Como estabelecer uma comunicação saudável e construtiva com os filhos, especialmente em situações de divergência? Nas situações de divergência, os pais têm a grande oportunidade de ensinar os filhos a argumentar e a aceitar o diferente. Nós não temos que concordar o tempo todo. Os filhos não têm que ser como nós somos, nem como nós queremos que eles sejam. É preciso entender como cada filho é, e ensiná-lo a se colocar e a se posicionar. Também devemos estar abertos para que eles nos mostrem que não temos sempre razão. Isso cria muita autoestima e autoconfiança nas crianças, e nutre bastante a relação.
  6. O autoritarismo por parte dos pais pode ser prejudicial para a formação dos filhos? Autoritarismo por si só já é nocivo. Não podemos confundir autoritarismo com autoridade, da mesma forma que não se deve confundir respeito com medo. Os filhos não podem se sentir oprimidos, mas, sim, escutados, cuidados e levados em conta. Os limites não são punições, são importantes para manter-nos vivos e seguros. Isso tem que ser entendido. A gente tem que acolher as frustrações que alguns impedimentos e proibições causam. Eles não ficarão felizes, não adianta querermos combinar frustração com alegria. O aprendizado não está aí. O que podemos fazer é ter empatia pelos filhos, tomar-lhes o olhar emprestado para entender o que é importante para eles.

Próximo encontro Matutaí:
Dia 10 de outubro
Das 12h às 14h
Livraria da Vila - Fradique
R$ 230 com almoço incluso
Inscrições: https://www.sympla.com.br/eventos?s=Matutai