Desplugando as crianças em 3… 2… 1

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Daniela Degani

Exposição precoce a eletrônicos e aumento do que os especialistas chamam de “tempo de tela” é um assunto importante a ser discutido, é também delicado e complexo.

O tema é importante devido aos potenciais danos que os excessos neste campo podem causar ao desenvolvimento neurológico das crianças e adolescentes.

E é complexo também. Proibir ou cortar acesso seria uma solução simplista demais. Isso porque o lado bom e ruim do “estar plugado” vêm, muitas vezes, como nessas promoções “combo”: compra um leva o outro.

Meu filho mais velho adora resolver cubo mágico, interesse que nasceu dele mesmo mas cresceu exponencialmente ao pesquisar e ver os milhares de vídeos a respeito na Internet. Um interesse super saudável, na minha opinião. Mas, se deixar, ele facilmente passa horas estudando esses vídeos e quando sai “para o mundo real” muito frequentemente percebo que está irritado e sem paciência. Por que isso? Porque nosso cérebro lê a interação com uma tela que muda de cor frequentemente como uma ameaça, acionando nossos mecanismos de defesa e desencadeando no nosso corpo reações de estresse.

E é delicado, porque tomar uma atitude que faça diferença pode envolver mudança de hábitos. Nos dias em que chego à noite mais cansada, confesso que adoro ligar a TV e ficar no sofá vendo desenho animado com meu filho caçula. Mas, a medida em que eles crescem, saem de cena Discovery Kids & seus “desenhos-fofinhos-com-música-calma-que-nós-pais-amamos” e entram outros canais com animações de cortes rápidos, ritmo acelerado e personagens de atitudes nem sempre exemplares (para dizer um mínimo sem perder a elegância).

Um estudo de 2011, publicado na revista Pediatrics, revelou o efeito de assistir esses conteúdos. Foram avaliados 3 grupos de crianças de 4 anos. O primeiro grupo assistiu o tranquilo desenho Caillou, o segundo grupo assistiu Bob Esponja e o terceiro desenhou em folhas de papel. Depois disso, todas as crianças passaram por um teste cognitivo. O grupo que assistiu Bob Esponja foi significativamente pior nos testes que os outros dois grupos. A conclusão do estudo é que, quanto mais acelerado o estímulo, mais difícil fica de focar e sustentar a atenção.

Se uma saída radical, como proibição completa, pode não ser produtiva e nem desejável, o que nós pais podemos fazer para ajudar no foco e concentração das crianças?

Abaixo algumas sugestões de especialistas como a PhD Kristen Race e outras minhas, advindas da observação e do trabalho com as centenas de estudantes que passaram pelo programa MindKids de mindfulness para crianças e adolescentes.

  • Comece eliminando o ruido desnecessário: sabe aquela TV que fica ligada o tempo todo sem que estejamos prestando atenção? Desligue! Sabe o rádio no noticiário enquanto conversamos? Desligue! Às vezes, chego na casa de meus alunos, os encontro no sofá com o celular na mão, o iPad no colo e a TV ligada tudo ao mesmo tempo. Não a toa temos dificuldade de concentração… Nós pais devemos também dar o exemplo: se estamos conversando com os filhos, o celular fica guardado, longe, TVs e afins desligados.
  • Identifique o efeito que cada atividade produz na criança e garanta que a criança tenha, no mínimo, de 2 a 3 horas por dia reservadas para atividades calmantes, não estruturadas. Ainda que muitas vezes liguemos a TV com o intuito de “sossegar as crianças”, a menos que o ritmo do programa seja realmente lento, como no desenho Caillou, o que na verdade estamos fazendo é estimular seu sistema nervoso. Atividades mediadas por adultos, como por exemplo, os cursos extracurriculares, também são consideradas estimulantes.
  • Invista nas atividades calmantes. Nesta altura, você talvez esteja se perguntando: tá bom Dani, já entendi que eletrônicos, incluindo TV, são estimulantes. Aulas de tênis e Ballet também são estimulantes. O que, então, acalma? Brincar, estar com outras crianças, ficar de bobeira, desenhar, conversar com os pais, são alguns exemplos.

Claro que falar é bem mais fácil que fazer, especialmente quando estamos falando de mudança de hábitos. Talvez este último item requeira alguns investimentos da parte de nós pais, os quais falarei na minha próxima coluna. Até lá :)