Intimidade

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Vivian Wrona Vainzof

Na semana que vem teremos um encontro Matutaí com o psicanalista Hanns falando da relação dos pais na vida das crianças. Um assunto tão atual na era das telas, das distâncias físicas reduzidas e as emocionais tão aumentadas. Esse encontro me deu vontade de publicar o texto abaixo, que escrevi um tempo atrás:

- Nunca mais nos encontramos, você acredita? - ela disse sem olhar nos olhos dele, enquanto enchia de Coca-Cola um copo com gelo. O rosto inclinado para o lado tinha o viço de pele tratada com água termal. Era loira-dourada, arrumada, o ombro à mostra. As mãos leves sobre a mesa eram mais presentes que ela, naquela conversa sutilmente desconfortável.

Eles ainda não se conheciam e tudo indicava que o caminho para a intimidade era longo.

Ela chegou primeiro, pediu alguma coisa ao garçom e se esforçou para parecer à vontade. Quando chegou seu par desconhecido, reconheceram-se no ato: um homem de meia idade surgiu na porta e fez uma pausa. Passeou o olhar, sem disfarce, pelo salão, viu todas as mesas ocupadas, mas só ela sorriu. Ele usava um traje social-descontraído antes do fim do dia e, mesmo assim, exageradamente asseado e perfumado. O paletó, de um xadrez largo em azul e vermelho, era apertado nos braços e o comprimento era seu tamanho justo.

As mesas do café, quase todas bem pequenas, acomodavam diversos tipos de encontros. Uns engravatados falavam de negócios; uma criança bem educada dividia um hambúrguer com a mãe ou a tia; uma dupla de jovens quarentonas tomava capuccino, alternando da seriedade fúnebre à gargalhada desenfreada, depois falavam no celular, olhavam o computador, o relógio, a janela e de novo o computador, antes da próxima gargalhada; um casal de namorados se olhava tão dentro um do outro, que não puderam notar o garçom aguardando, desconcertado, que fizessem seu pedido.

E, então, eles, na mesinha da frente. Uma família ainda aguardava nas poltronas da espera, com dois carrinhos de bebê, mas nenhuma mesa parecia disposta a findar suas conversas.

A deles, mesmo, ia longe.

Ela continuou com seu insuposto discurso de apresentação:

- Eu não sou feminista, de fazer passeata, mas tenho meu discurso, sabe? - não era o tipo de pergunta que esperava uma resposta - me conhecendo como me conheço, eu estaria me arrumando um abacaxi…

E ele concordava com a cabeça. Só concordava.

Pediram o vinho da casa. Brindaram “a nós”, na tentativa esgarçada de transformarem-se num só.

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A intimidade não é um destino em si, mas um percurso que se renova a cada passo, a cada olhar, a cada risada, a cada consolo, a cada segredo, a cada bocejo, a cada acaso, a cada minuto, a cada “cada”...