Matutaí com a Dora Porto

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Vivian Wrona Vainzof

* Por Vivian Wrona Vainzof

No ano passado eu escutei, por mais de um hora, todo mês, a Dora Porto falar sobre educação e maternidade, para mais de 50 mulheres espalhadas em poltronas e sofás aconchegantes. Mais macia era a voz dela, de mãe sabida e avó vivida. E quando o encontro acabou, eu não queria ir embora. Quis continuar ali pra sempre, ou convidar a Dora para ir embora comigo.

A Matutaí nasceu para ser um lugar de encontro, para mães e pais repensarem a educação e a relação com os filhos. Mas de verdade, o que eu queria quando me juntei à Vivian Tempel Wroclawski para dar vida a esse projeto, era poder escutar a Dora, e outras pessoas que me fazem pensar, e convidá-las a ir comigo para dentro de minhas reflexões.

A Dora Porto é educadora, especialista em atendimento familiar. Quando ela conta uma história dos filhos dela, dos netos, das noras, ou dos alunos na escola onde trabalha, faz com tanta clareza e proximidade que nos coloca em contato direto com as nossas histórias. As relações familiares podem ter outro sobrenome mas todas esbarram nas mesmas questões que deixam as mães desorientadas. Desde que levei a Dora pra casa comigo, meus desvios têm bússola. Uma vez ouvi as crianças, em casa, brigando e uma disse para a outra, no estridente timbre infantil: “eu vou te matar!” Ao invés do previsível discurso sobre amor fraterno, fui buscar o norte no humor sensível dela e respondi com calma: “e como é que você pretende realizar esse feito? Será por envenenamento, enforcamento, ou você tem alguma ideia melhor?”. Desarmados, rimos juntos daquele desatino. Não houve assassinato e nem sermão. E a ameaça de morte não nos rondou mais.

Numa outra ocasião, encontrei meus filhos no clube, o mais novo com os pés no chão. Pedi que calçasse os sapatos para ir embora e ouvi dele: “mamãe, meu chinelo não veio”. A clássica culpa materna me apontou o dedo em riste. Mas em poucos segundos eu restabeleci a ordem e escolhi compartilhar, amorosamente, a responsabilidade que meu menino de 5 anos já poderia dar conta. Me pus à sua altura e respondi fazendo graça : “chinelos não andam, não voam e não pedem carona. Toda vez que você, ou eu, esquecemos de colocar o chinelo na mochila, ele não vem. Conto com você para organizar sua mochila e conte comigo para te ajudar, sempre que precisar”. Ele passou a se preocupar, na véspera, com o que precisa arrumar para o outro dia.

Aconteceu ainda do meu filho mais velho, no banho, espirrar água por todos os lados, na pia, na privada e no teto, molhou as toalhas penduradas. Quando entrei no banheiro, escorreguei e por pouco não quebro uma perna. Quis mandar parar imediatamente com aquela bagunça, mas ouvi a Dora sussurrar: “brincar não é um problema; em seguida é só arrumar”. Então esperei acabar o momento de euforia e ofereci: “vamos arrumar juntos essa bagunça?” Ele insistiu que a Dete, a moça tímida que trabalha há anos lá em casa, poderia fazer isso mais tarde. Mas cuidado e respeito se ensinam com exemplos, não se deixa para mais tarde. Por isso expliquei que cuidar da nossa casa não era um castigo, faríamos juntos e ele ficaria orgulhoso do resultado. Foi a Dora que me ensinou.

Na próxima semana temos um encontro da Matutaí e a Dora é nossa convidada. É uma oportunidade de ouvir, em viva voz, toda a sensatez com que ela indica as saídas para situações do dia a dia que, se ainda não aconteceram, também vão acontecer com você. Inscreva-se pelo Sympla.

Dora Porto
Dora Porto