Matutaí com o psicanalista Hanns

Lina Brochmann

Li recentemente divulgação do IBGE sobre o número alarmante de divórcios no Brasil. Cai a taxa de casamentos e sobe a de separações. Ano após ano recebemos esta informação com assombro. Mas se é um movimento conhecido e, portanto, previsível, por que nos surpreendemos com a notícia? Será que a expectativa revela a porção romântica de todos nós? Será que a fé no amor eterno até que a morte nos separe é a cara de uma sociedade que ainda acredita na família como base central da sua existência, apesar da realidade acenar o contrário. Com todo o meu romantismo canceriano, espero que sim.

Uma vez ouvi uma das declarações mais lindas de que consigo lembrar: numa grande festa de celebração familiar, o marido agradeceu à esposa: obrigado por eu gostar de voltar pra casa todos os dias.

Gosto de pensar nisso. Espero que meus filhos possam sentir assim quando terminam a aula, ou meu marido, no fim de seus longos dias de trabalho. Também respiro fundo quando embico meu carro no portão da garagem e me oxigeno, para que o encontro em família não se torne um enorme desencontro de desejos e expectativas que a rotina foi minando discretamente, enquanto todos dormiam.

Quero crer que mantenho um lar doce lar. Um ambiente acolhedor e agradável onde a mãe não é uma geladeira velha, imprescindível só quando pifa; onde filhos contribuem com autonomia e, mesmo se não tiverem prazer nisso, pelo menos que o façam com responsabilidade e consideração. Onde irmãos estão lá uns para os outros, sem essa de “não fui eu”. Onde há disponibilidade para ouvir e enxergar os outros sem rivalidade ou vinganças.

Onde há espaço para cada um ser um sujeito inteiro na constituição do casal e que se fortaleçam com isso. Onde possamos nos olhar nos olhos com sinceridade para dizer o que somos.

Não quero parecer indelicada com os dados do IBGE mas ainda acredito que cabe a nós evitar essa queda do penhasco.

Luiz Alberto Hanns, psicanalista especialista em atendimento de casal, é nosso último convidado na Matutaí esse ano. Ele fala um pouco sobre casamento e a influência sobre os filhos na entrevista abaixo.

Também da pra ouvir o Hanns no próximo dia 5/12 das 12h às 14h na Livraria da Vila, em São Paulo.

1- Pode citar alguns “bons” e “maus” reflexos que a relação entre pai e mãe – casados ou separados – tem na vida e formação emocional dos filhos?

A relação entre os pais influencia os filhos em dois aspectos. Primeiro, no clima da casa (no caso de pais separados, no clima de cada casa), dependendo de como é a relação, pode produzir ansiedade, depressão ou promover calma e alegria. Em segundo lugar, afeta o modelo de relação que os filhos adotarão para si no futuro. Eles, em geral, observam a relação dos pais que pode agradá-los e tenderão a imitá-la e reproduzir como adulto práticas positivas ou negativas do casal. Mas pode ocorrer que a relação seja tensa ou conflituosa e produzir sofrimento e levá-los a buscar exatamente o contrário do que viveram em casa. Daí podem cometer os erros opostos por excesso.

Por exemplo, com pais briguentos podem tornar-se excessivamente submissos ao cônjuge por medo de despertar a ira no outro. Ou ao contrário, podem seguir o modelo de origem e achar que só brigando as pessoas se impõem. Sugiro aos pais que brigam muito na frente dos filhos, ao menos tentarem não demonizar o parceiro perante o filho, e se for possível, deixarem claro que adultos as vezes brigam, mas que isso não significa que um seja malvado ou queira o mal. Os filhos podem entender que são desentendimentos, divergências, mas que ambos os pais querem o melhor para a família.

2- Esses reflexos diferem muito de uma família convencional para outros formatos, por exemplo, pais e mães homoafetivos, pai e madrasta, mãe e padrasto, mães solteiras ou viúvas, pais solteiros ou viúvos?

O importante é que os pais estejam centrados, equilibrados o suficiente para dialogar com os filhos e serem leais, de resto, os filhos podem lidar com as mais diversas configurações familiares, pais separados, casais homoafetivos, casamentos abertos, pais solteiros, irmãos adotivos etc. De qualquer modo, se sua configuração familiar estiver causando estranhamento ao seu filho ou aos amigos com quem ele convive, pode valer uma consulta a um profissional para orientar os pais sobre como podem dar suporte ao seu filho.

3- E no sentido inverso? Como as crianças e adolescentes podem influenciar positiva ou negativamente seus pais?

Em casos de filhos problemáticos a tendência é que aumente o estresse na casa e entre o casal. As vezes brigam mais entre si, divergem sobre como educar e se acusam mutuamente. Novamente, aí vale a consulta a um profissional para ajudá-los não só a lidar com o filho, mas para que consigam cooperar como casal. Mas também há o caso inverso, pais imaturos cujos filhos se mostram excepcionalmente maduros, equilibrados, generosos e lhes dão lições de vida. Só é preciso evitar que os filhos virem mediadores dos pais ou cuidadores deles.

4- É comum ouvir casais declararem que, depois que tiveram filhos, se sentem menos emocional e sexualmente satisfeitos com a relação. Dar um novo sentido para esse casamento, reaquecendo a vida sexual (que no passado foi um elo tão importante para os dois), passa por quais atitudes, de maneira geral?

A vida sexual pode desaquecer não só porque nasceram filhos, mas porque outros fatores do viver junto podem influenciar. Por exemplo, a habituação, a rotina, ter de presenciar aspectos menos glamourosos da intimidade (ronco, puns etc.), dividir tarefas domésticas chatas, pagar contas, discutir e tomar decisões que podem gerar divergências (decoração, horários, finanças) etc. Além disso, as pessoas envelhecem, a libido tende a diminuir, a maioria gosta de novidades e um pouco de aventura, algo mais complicado de manter e promover num casamento.

Solução? Embora cada caso seja único, podemos trocar o sexo emocionante por sexo recreativo e aumentar a liberdade e intimidade de se realizar desejos na cama. Também pode ser importante aumentar a conexão fora da cama, por exemplo, ter atividades prazerosas em conjunto (interesses em comum) e reservar um dia ou noite para esse convívio a dois. Por fim, aprofundar a verdadeira amizade também solidifica a confiança e gratidão mutua e pode ajudar a manter o desejo. A maioria dos casais que se sentem sexualmente felizes por décadas, passa por fases de mais e menos atividade, portanto, não precisa ser o tempo todo sexo nota 10.

5- Olhar e cuidar dos desejos e projetos próprios, estando casado e com filhos, ou se desconectar de si. Mas e o caminho do meio? É realmente possível?

É um desafio constante, os casais atuais vivem este conflito entre abrir mão de necessidades individuais em nome do projeto família feliz ou ser mais individualista. Antigamente a mulher se submetia e perdia a identidade e o homem precisava muito do seu espaço pessoal. Claro que a busca é pelo caminho do meio, mas as vezes é simplesmente uma sobrecarga excessiva e ambos entram em estresse permanente, passam a brigar ou se deprimem. Um caminho é aprender a dizer não a certas incumbências, sobretudo as mulheres têm de se autorizar a fazê-lo. Elas tendem a se sentir culpadas e tentam atender a todos os chamados e pedidos, dos filhos, dos parentes, das amigas, do marido, até do cachorro e do peixinho do aquário. Mas, também para homens, embora tenda a ser um pouco mais fácil, as pressões são grandes. Ao final, os dois precisarão se conformar em alternar períodos em que certas dimensões da vida estarão menos atendidas. Não há como fazer tudo com esmero ao mesmo tempo. Por exemplo, talvez um tenha de, pôr um tempo, descuidar da forma física, ou das aplicações financeiras, ou da manutenção da casa, ou de acompanhar os filhos, ou de cultivar os amigos, ou ainda da carreira. Em outra fase pode-se retomar a área que estava pouco atendida e deixar um pouco outro setor da vida de lado. Casais que se dão bem têm a chance de conversar sobre isto e fazer acordos.