Matutaí: qual a sua sabedoria transcendental ?

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Vivian Wrona Vainzof

Conta a história “A arte cavalheirisca do arqueiro zen”, sobre a jornada de 6 anos do filósofo alemão Eugen Herrigel no Japão, aprendendo as habilidades do arco e flecha. A prática que já foi arma de caça e de guerra e hoje é mais difundida como esporte, ali é reconhecida como ritual espiritual. Enquanto a nossa busca ocidental é pela perfeição técnica, Herrigel compreendeu que, no Oriente, o exercício leva à sabedoria transcendental e isso mudou sua vida para sempre.

Não tenho estudo em sabedoria transcendental. Sei pouco ou nada sobre espiritualidade japonesa, mas tenho minhas crenças de que sempre é tempo de mudar para sempre! E é com esses olhos redondos, amendoados, um tanto ingênuos, que vejo a falta que faz uma pitada de Japão, de sabedoria zen - seja ela o que for - no que estamos fazendo da vida e mostrando aos outros, especialmente aos filhos.

De onde vejo, temos valorizado demais a informação e o conhecimento e nos preocupado pouco com o ensinamento de sabedorias intangíveis. Não é preciso ser monge para enxergar o desprezo da nossa sociedade com quase tudo o que esbarra em espera, em entrega, em vazios e faltas.

Estamos de olhos bem abertos para tudo o que se pode controlar e medir, mas estamos deixando de ver e sentir tanto mais.

“É frequente as pessoas acelerarem na vida, sem se perguntar pra onde ou de que correm”. Quem diz isso é Carl Honoré, líder do movimento Slow no mundo, uma iniciativa que provoca discussão sobre a “pobreza do tempo”. Ele acredita que nosso passo apressado enfraquece as conexões com as pessoas, com o momento presente, com nossas essências. Eu também creio que sim. E ele faz um alerta: estamos usando muito mal o tempo livre que a tecnologia nos proporciona, com ainda mais estresse e tensão. Vamos nos tornando cada vez mais ocupados, preocupados e desconectados da natureza humana.

A arte oriental do manejo do arco e da flecha acerta esse mesmo alvo. O arqueiro japonês não compete com outros arqueiros, a sua competição é consigo mesmo. Ele mira em algo obscuro e, de olhos fechados, enxerga tudo por dentro. A flecha é certeira, claro, o arqueiro é mestre no que faz. Mas acertar é só a concretude para o que não dá pra explicar.

Como mães, impossível não lançar os filhos no mundo. Colocamos ali nossos melhores esforços, intuitos e desejos. As crianças são flecha ligeira, num estalo já estão fora do arco e não nos pertencem mais. Vão apressadas, mas a viagem tem que valer a pena. Será que chegam ao destino que escolhemos para elas? Penso que isso não é o que mais importa, desde que levem nessa jornada toda sabedoria que puderem carregar.