Memórias

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Vivian Wrona Vainzof

Sou mãe e sou filha e por mais que o primeiro papel ocupe a maior parte dos meus dias, meu pai e minha mãe estão quase sempre comigo no trato com meus meninos. Ser filha ainda toma a maior parte de mim.

São só 10 ou 12 anos de infância. Com mais uns da adolescência, vá lá. Mas parece ser a vida inteira. Pra mim, é tão recente tudo o que ouvi e senti em casa com minhas irmãs, o jantar em família, sempre juntos, falando do dia. As viagens de carro, cantando num harmonioso desafino. A mão fria, de unhas pintadas, apertando meu braço contra o termômetro, nas noites de febre. As broncas, que escapavam por entre lábios semi cerrados, acobertadas pelo espesso bigode escuro, enquanto as têmporas inflavam como guelras.

Sutilmente, quase sem notar, vou levando aos meus filhos toda a vida já vivida. As brincadeiras se repetem, as músicas, os livros, as receitas que vão pra mesa, passeios, preocupações, sonhos, vou tirando um a um da mala de couro ruivo, alaranjado, que minha mãe ainda guarda num quartinho, junto com muitas coisas e memórias daquele tempo em que as malas nem tinham rodinhas.

Quando meu pai chegava em casa à tardinha, a gente desligava o telefone e nem era ainda a era dos celulares e aparelhos pessoais. Mas lá em casa já se falava em convivência. TV, tínhamos uma só. E sem alternativas eletrônicas, era preciso escolher o programa de comum acordo, embora a palavra final fosse sempre dele. Respeito paterno também é inegociável no meu novo núcleo familiar.

Esperei muitas e muitas vezes alguém aparecer na saída do clube pra me buscar. O horário marcado era mera referência, podia ser horas mais tarde. Sem chance de entrar em contato com quem vinha de longe, perdido no trânsito de São Paulo, o jeito foi apelar para a confiança de que sempre viriam, como até hoje escolho viver. E eles sempre vieram.

Quando mudei de escola, na 4a série, uma vez entreguei ao meu pai um recado, que ele abriu e leu: “mamãe, a vivian conversou muito na classe hoje”. Ao que respondeu na linha de baixo: “em casa ela também conversou”. Envergonha pelo pai que sempre misturava severidade com humor, senti também a segurança de poder ser quem sou e quero ser.

Lá pelos 14 anos fiz uma viagem de estudos a Israel, com um grupo de jovens de todo o país. Na mesma época, minha irmã menor viajou para a Disney com uma família de amigos. Nunca esqueço das meias de lã coloridas que nós duas ganhamos de presente, com cartões que diziam assim (para ela): “pra pisar nas estrelas”, (e pra mim): “Para seguir os passos dos profetas”. E o caminho foi sempre aquecido pela presença deles, colorido pela existência deles e amparado pelas mãos dadas com eles.

A voz do meu pai soa clara nos meus ouvidos, embora já há mais de 25 anos que não a escuto pra valer. Mas ainda sei o que ele diria, porque meus filhos me convidam todos os dias a lembrar a estrada de onde vim, o que carrego comigo e o que posso ensinar a eles.