Nasceu mamãe, nasceu papai

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Talita Pryngler

Dois finais de semana atrás fomos assistir o novo show do Tiquequê “Barulhinho, barulhão”, em São Paulo. Nós acompanhamos o grupo há algum tempo, e suas músicas embalaram muitos momentos importantes do cotidiano da minha família e também do espaço, voltado à primeira infância, que coordeno. Confesso que ainda me sentia saudosa com a saída do Angelo Mundy do quarteto, sendo difícil imaginar a música do gigante sem o seu “boroborom borom” tão marcante. Mas, a vida é feita de ciclos e saber vivê-los e respeitá-los traz aos processos mais beleza e ensinamentos, para além do medo das perdas e da mudança, inerentes ao fechamento deles.

Desejo ao querido Angelo muito sucesso na sua jornada!

Nesta nova fase do grupo, é interessante observar um repertório de canções que falam muito da experiência de tornar-se pai e mãe, e também sobre o dia-a-dia da construção dessa relação que é ao mesmo tempo tão banal e rotineira quanto complexa e ardilosa. A música “Nasceu mamãe, nasceu papai” chama atenção de crianças e adultos e coloca algumas questões sobre o imaginário cultural que cerca o período da perinatalidade (período que inclui a gestação e o primeiro ano de vida do bebê). A letra tem como refrão: mamãe nasceu quando eu nasci, nasceu mamãe… nasceu papai, nasceu mamãe, papai nasceu quando eu nasci nasceu papai…

Lembro bem do dia em que cheguei em casa e minha filha, que na época tinha 5 anos, me chamava muito animada para ver o clipe da música que ilustrava, através de uma animação, o nascimento do bebê. Ela, no ápice das suas teorias sobre o nascimento dos bebês, me disse: - mamãe você viu só, os bebês nascem pela boca! Foi muito interessante perceber que ela “via” na imagem, a sua construção sobre o enigma do nascimento.

Mas para nós adultos essa letra também levanta algumas questões, como: O nascimento biológico coincide com o lugar de pai e mãe? O nascimento do bebê coincide com o nascimento do filho?

Essa é uma discussão importante e cara para psicanálise, que é a desconstrução do “mito” do amor materno como algo que seria instintivo e automático. Tornar-se pai e mãe é um processo, uma construção. Ambos, homens e mulheres, precisam realizar um complexo e intenso trabalho psíquico, que implica numa movimentação dos seus lugares e posições, muitas vezes inconscientes, para que haja espaço para uma nova configuração familiar. Essa construção leva um tempo, em alguns casos, dias, semanas ou meses. Nesse período a mãe, ou quem exerce esta função, experimenta um turbilhão de emoções e sensibilidade (mais ou menos acentuadas), tem seu mundo revirado e sacudido! Mas é justamente essa condição mais “sensível” que permite que ela possa se identificar com o bebê, reconhecendo e respondendo os seus chamados.

Podemos dizer então que o nascimento biológico do bebê ou, da mesma forma, a chegada de uma criança adotiva, convida os adultos, homens e mulheres, a exercerem essa responsabilidade radical que é tomar esse ser como filho, enlaçando-o numa linhagem familiar, permeada por identificações e sonhos. Ao mesmo tempo é necessário que esse filho possa ter espaço para trilhar seu caminho, vivendo assim seus ciclos de aquisições, transformações e fechamentos tão importantes para o seu crescimento e realizações na vida.


Notas da editora:

  • Em 2015 a Bel Tatit nos concedeu uma linda entrevista aqui no blog do bora.aí. Já viu? http://bora.ai/sp/blog/entrevista-tiqueque
  • O Tiquequê faz shows nas principais cidades do Brasil. Clique em “buscar” na lupinha logo aqui acima para saber se tem algum show previsto na sua cidade.

por Talita Pryngler em colunas, experiências.

Talita Pryngler é psicóloga (PUC-SP), psicanalista (Sedes Sapientiae) com especialização em educação de 0 a 3 anos (ISE - Vera Cruz) em desenvolvimento motor (Núcleo do Movimento - André Trindade) e Intervenção preciosíssima de bebês e seus pais (Instituto Langage). Idealizou e coordena o Espaço Bebê da Hebraica, é consultora na área desenvolvendo projetos para primeira infância e atende em consultório particular crianças, adolescentes e adultos. Atualmente integra o corpo de professores do instituto Gerar de psicologia perinatal. É mãe de duas meninas e adora o universo da infância.