Nove Meses Antes e Novas Mulheres Depois

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Deborah Goldemberg

“Já pra fora! Se você não souber nem fritar um ovo, não vai acabar com o umbigo no fogão!” Esta foi a frase que ouvi de minha mãe toda vez que tentei me aproximar da cozinha durante a infância e adolescência. A mensagem era clara - aquela bagunça deliciosa da massa do empadão cravejada de azeitonas verdes e o universo glacial de claras batidas transbordando das batedeiras eram território proibido para mim. O meu destino era outro, “melhor” do que o dela, que chegou a trabalhar fora só que não estudou nas melhores escolas nem aprendeu inglês para poder trabalhar numa multinacional e viajar independentemente.

O que eu fiz? Estudei nas tais melhores escolas, aprendi a falar inglês, viajei a Europa de mochila, namorei o quanto quis (usando sempre camisinha, claro!), arrumei o emprego dos sonhos dos meus pais e me tornei uma mulher independente. Até os 36 anos, já no segundo casamento, não havia nem parado para pensar em filhos. Dentre as amigas mais próximas, apenas a irmã mais velha de uma tinha tido um menino e as notícias que eu ouvia, horrorizada, eram que ele adulava um personagem idiótico e amarelado chamado Bob Esponja.

É chocante dizer, mas quando engravidei eu jamais havia ainda segurado um recém-nascido no colo por mais de 2 minutos! Verdade, mesmo.

Por essa absoluta falta de contato com a infância, lembro-me nitidamente de ter uma visão estereotipada da maternidade. As poucas vezes que trocara ideia com alguma mãe, após me acostumar com seu visual das olheiras-do-Iguaçu, ouvi-as dizer que “Ter filhos dá trabalho, mas vale a pena” e fiquei desconfiada. Minha leitura era, “Claro que elas vão dizer isso. Agora que já nasceu, não tem como colocar para dentro.” Hoje, sei que o que elas diziam era a mais pura verdade (e sei que se você ainda não passou por isso, vai desconfiar de mim também!).

Tornei-me uma mãe coruja. Troco cinema, viagem para a praia, jantares caros, lançamento de livro, vernissage, show do Pearl Jam, vale-motel e até ganhar na loteria para passar uma tarde com a minha filha. Já levei bronca do pediatra e me inscrevi no grupo de ajuda chamado “Mães Anônimas” e estou em pleno processo de recuperação da minha identidade.

A transformação foi tão grande, que mereceu uma reflexão a altura. Esta é uma coluna de crônicas sobre o reencontro que acontece nos 9 meses de gravidez e os 9 primeiros meses após o parto. Digo reencontro porque, de certa forma, é período de desconstrução e resgate de aspectos do que durante séculos foi “ser mulher” e, devido às mudanças socioculturais do século XX, vive atrofiado dentro de cada uma de nós que vive com nossos laptops no colo.

Sem medo de trair as mulheres que queimaram seus sutiãs, espero que vocês possam rir e se emocionar com os vários desafios e aprendizados tragicômicos que vi e vivi nesta fase. Recomendo desde já - aprendam a fritar ovos e até fazer cupcakes!

Deborah Goldemberg
Deborah Goldemberg

por Deborah Goldemberg em colunas, Nove meses antes e novas mulheres depois.

Deborah Goldemberg é antropóloga e escritora, autora de Valentia (Ed. Grua, 2012), romance vencedor do PROAC do Governo de SP/2011 e finalista dos prêmios Jabuti e Machado de Assis (Biblioteca Nacional) em 2013. Seu primeiro livro para o público juvenil, Antônio Descobre Veredas (Ed. Biruta), saiu em 2014. Seus livros de estreia foram as novelas Ressurgência Icamiaba (Selo Demônio Negro, 2009) e O Fervo da Terra (Carlini & Caniato, 2009). É curadora na área de literatura indígena, coordena oficinas literárias em espaços culturais como Casa Mário de Andrade, Casa das Rosas, SESC Pinheiros e Livraria Cultura. É fundadora do projeto LITERARÍA de curadoria literária.