O doce compasso da espera

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Vivian Wrona Vainzof

Que surpresa foi abrir aquela caixa de papelão que chegou na portaria, cheirando a papel e tinta, com uma carta pessoal. Essa é uma das coisas que me fazem sorrir por dentro, junto com algumas outras tão simples quanto essa. Escrever e ler cartas sempre me deu um prazer estranho. Aos 13 anos eu tive uma amiga por correspondência, americana de Indiana, dessas que a gente nunca chega a conhecer. Já não consigo me lembrar se o nome dela era Charlote ou Nicole ou um outro bem sonoro assim, mas sei que nos correspondemos por meses, só pra que eu pudesse postar e receber alguma coisa no correio todas as semanas. Talvez tenha sido essa nostálgica emoção, tão rara atualmente, o que mais aguçou os meus sentidos quando recebi a encomenda.

Eu ainda usei o e-mail como correspondência de verdade nos primórdios da sua existência, antes das mensagens instantâneas, mas não há nada como escolher papel de carta e envelope, a cor da caneta, a letra de mão, a compra do selo na banca de jornal, a visita à caixinha amarela na esquina, com seu poste azul e uma fenda de ar um pouco zombeteiro, rindo do caminho sem volta e sem garantia. Por isso valorizei a entrega.

Carreguei a caixa comigo sem abrir, só para alargar a sensação. Tinha umas coisas a fazer na rua e a caixa foi comigo, assistiu tudo de perto sem dizer nada, sem mostrar a que veio, tapada que era… ou estava. Só mais tarde eu me acomodei no quarto e, num ato quase solene, fui abrindo devagar, pra degustar aquela abertura. Eu sabia o que encontraria dentro da caixa, mas também queria ver o que mais eu encontraria.

Li primeiro a cartinha endereçada a mim, que parecia ter sido escrita em sussurro, só pra mim. Depois vi uma revista, fina mas caprichada, impressa em papel macio, falando sobre o autor da obra. Por fim, num estojo de lona estampada, com velcro no fecho, encontrei o livro Quase Memória, do Carlos Heitor Cony, numa edição superexclusiva, que terminei em poucas semanas, ja antecipando como seria a próxima caixa que ia chegar na portaria, no mês seguinte.

Penso no tempo, na espera e em quantas coisas não temos conseguido esperar. A vida segue em via expressa, de prazeres ligeiros e instantâneos, de olho no que está por vir. Será que é por isso que a leitura ficou tão penosa nessa geração? Como trocar a excitação de estar conectado com o mundo inteiro, por um momento de conexão pessoal dentro um livro longo, ou curto até, mas que convida ao encontro individual, silencioso, profundo? Uma mãe postou uma estratégia bem criativa para convocar os filhos à leitura prazeirosa, que viralizou na internet: “A senha do wi-fi desta semana é a cor do vestido de Anna Karenina no livro. Eu disse o livro, não o filme!! Boa sorte! Mamãe”, ela escreveu em um pedaço de papel.

Achei a ideia divertida. Será que funciona?

Por isso tudo é que foi tão inesperado que um clube de assinatura literária para crianças, tivesse a generosidade de oferecer à Matutaí um petisco desses, para os nossos filhos, no mesmo momento em que eu refletia a esse respeito. Recebemos com sorrisos por dentro e por fora! Cada criança ganhou um livro selecionado a dedo, pensado para a idade deles e com uma cartinha pessoal explicando a escolha e tudo o mais. Surpresa boa! As crianças adoraram. Pude dar a elas o gostinho perdido do correio. Se eles se animarem, têm todo o meu apoio para escrever de volta agradecendo, contando o que acharam. Mas talvez prefiram fazer isso por e-mail…

Só espero que a leitura dos livros que chegaram e que lemos juntos, não seja experiência antiquada como as visitas ao correio.