O sono das mães

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Deborah Goldemberg

Eu era uma pessoa bem baladeira antes de me tornar mãe. Pode-se dizer boêmia. Não foram poucas vezes que tomei café da manhã no Centro de São Paulo às 4 da manhã (em geral, uma feijoada) ou que virei noites para ir ver o sol nascer na praia. Mesmo a trabalho, cansei de pegar voos saindo de Cumbica à meia-noite para chegar em algum lugar no meio da Amazônia às 3 da manhã. Nada disso me preparou para ser mãe…

Antes do nascimento dessa nova pessoa - a mulher-zumbi - qualquer balada, qualquer extrapolada por causa nobre ou comemoração especial conta com um aliado – o dia seguinte. Sim, o excesso das noites tem um pouso certo… aquela noite do dia seguinte em que você vai simplesmente desligar o celular, pular para dentro do seu pijama mais flanelado e se enfiar na cama cedo para dormir e dormir até acordar completamente inchada e babando.

É engraçado que nas proximidades da chegada do seu primeiro neném, você dorme loucamente. Se preocupa com o parto. Pensa em como será o neném. Se vai ter trânsito na hora de ir para a maternidade. Você nem imagina que você NUNCA mais vai dormir uma noite inteira. Isso nem passa pela sua cabeça. Eu digo NUNCA e, claro, nunca devemos dizer NUNCA, e claro que um belo dia você vai voltar a dormir uma noite inteira de novo, mas a sensação que te envolve como um tsunami no pós-parto, quando as noites insones virão como ondas, uma atrás da outra, é que NUNCA, NUNCA, NUNCA mais você vai dormir!!!!!!!!!!

Marinheiras de primeira viagem, entendam, os nenéns acordam de três em três horas, primeiro para mamar e depois por hábito. Hoje, amanhã, depois, depois, depois, depois, depois e depois a perder de vista. Não está previsto um intervalinho para você recuperar o sono. Mesmo. E quando eles não acordam, você acorda preocupada porque ele não acordou! É louco! Mesmo se ele estiver respirando tranquilamente, você provavelmente vai ficar que nem uma coruja ao lado do berço até ele acordar, para ter certeza de que está bem.

Mesmo com duas babás eletrônicas e um marido ao lado, a mãe não relaxa o bastante para dormir profundamente. Imagine se uma babá quebrar e a bateria da outra falhar? Maridos, já sabemos, não são confiáveis. Eles dormem, acredite. Para ser aquela que não falha em ouvir o chorinho, meus ouvidos desenvolveram a audição de um elefante. Eu passei a ouvir quando uma agulha cai na cozinha do meu vizinho. Aquele meteoro que caiu na Rússia, eu ouvi. E, claro, isso piorou ainda mais minhas chances de dormir bem, porque ouço todo tipo de barulho e eles atrapalham o meu sono. Eu sei…

Uma bela noite, com a ajuda de algum livro escrito por alguém que já vendeu milhões de cópias às custas de mães insones, você dorme. Por acaso, estou escrevendo essa crônica no day after desta noite maravilhosa, provavelmente, por causa disso. Estou até com dor nas bochechas de tanto sorrir. Dei uma de Zeca Baleiro e mandei flores ao delegado. Dei a vez a três carros no trânsito, quando em geral, como boa paulistana, eu acelero e dou guinada, nem que seja para ficar parada no sinal dois metros adiante. Dei um beijinho no maridão quando ele reclamou que o jantar estava ruim e me ofereci até para lavar a louça…

Ah, nada como a bonança depois da tempestade… ​

por Deborah Goldemberg em colunas, Nove meses antes e novas mulheres depois.

Deborah Goldemberg é antropóloga e escritora, autora de Valentia (Ed. Grua, 2012), romance vencedor do PROAC do Governo de SP/2011 e finalista dos prêmios Jabuti e Machado de Assis (Biblioteca Nacional) em 2013. Seu primeiro livro para o público juvenil, Antônio Descobre Veredas (Ed. Biruta), saiu em 2014. Seus livros de estreia foram as novelas Ressurgência Icamiaba (Selo Demônio Negro, 2009) e O Fervo da Terra (Carlini & Caniato, 2009). É curadora na área de literatura indígena, coordena oficinas literárias em espaços culturais como Casa Mário de Andrade, Casa das Rosas, SESC Pinheiros e Livraria Cultura. É fundadora do projeto LITERARÍA de curadoria literária.