O tabu do tempo para si

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Deborah Goldemberg

​* Por Deborah Goldemberg.

É difícil para uma mãe lactante confessar que precisa de “tempo para si”. Essa expressão implica que o tempo de cuidar do seu neném, de alguma forma, não a satisfaz plenamente e antecipa que ela vá priorizar a si em algum momento, o que pode ser visto como inadmissível pela patrulha da maternidade*. Cuidar dos filhos dá muito prazer, mas vamos ser sinceros - é impossível ter prazer fazendo exatamente a mesma coisa 24 horas por dia durante semanas e meses e anos a fio. Até dormir noites e ininterruptas em lençóis de cetim, o desejo secreto de todas as mães, poderiam se tornar enfadonhas nesse ritmo!

Quando eu vivia na redoma de vidro da lactância com meu grupinho de mães da praça, sem me recordar de jamais ter sido qualquer coisa na vida além de um colo gostoso que solta leite quentinho, passava por nós uma mãe toda sorridente indo para suas aulas de tênis. Todas a cumprimentavam, mas quando ela ia embora elas espinhavam: “Ela é dessas que só pensa no tempo dela”. Tempo dela? Como assim? Eu nem entendi o conceito na primeira vez. “É mãe de segunda viagem…”, explicaram, “O marido espera que ela mantenha a boa forma.” Certo dia, alguém arrematou que essa mãe tinha praticamente abandonado o segundo filho nas mãos de uma babá!

Desde então, registrei que ansiar por “tempo para si” era o oitavo pecado capital e segui determinada a nunca fraquejar. Toda vez que via aquela mãe sorridente rumo à sua aula de tênis, desviava o meu carrinho com a maior rapidez possível, sem derrubar a minha neném, para não cruzar com ela. Imagine se alguma das mães da roda me vissem conversando com ela? Pensariam que eu sou dessas que tira tempo para si! Que horror! Logo eu! Tinha que evitar o contágio e a falsa má reputação à qualquer custo. Assim foi.

Meses depois, numa tarde de verão, estava no parquinho com minha filha e eis que surge a tal mãe sorridente. Minha filha começou a brincar com o filho dela antes que eu pudesse escapar e nós acabamos batendo papo, como fazem as mães nos parquinhos. Conversa vai, conversa vem, ela me diz que adora forró. Eu fico chocada quando as palavras caem da minha boca, descontroladas: “Eu também adoro forró!” A sensação de dançar ao som da sanfona ressurgiu dentro de mim e acabei não resistindo, “Mas, você vai no forró?” “Claro!”, ela gargalhou. “Com seu marido?” Enigmática, ela respondeu, “Ele fica com as crianças.”

As cenas do próximo capítulo, você pode imaginar. Eu fiquei louca de vontade de… bem, ter tempo para mim. Não apenas para tomar banhos longos e, de vez em quando, fazer as unhas, como àquela altura eu já me permitia. Fiquei com vontade de fazer algo que era tão meu que era meu antes mesmo de eu conhecer o meu marido! Trocamos WhatsApp e ela ficou de me chamar para irmos juntas. Aconteceu. Dancei a noite inteira! Foi maravilhoso. No dia seguinte, senti mais sono do que o usual (3.8% na escala mater do sono**), mas cuidei da minha filha com sempre. De diferente, percebi ter estado um pouco mais sorridente do que o usual…

Não fiquei apenas naquela noite de forró. Aquela foi a primeira mordida na maça e, daí, foram surgindo outras coisas que eu quis fazer para mim. Meses depois, tirei um fim de semana para viajar com as amigas. Dois anos depois, voltei a trabalhar full-time. Até hoje, me lembro daquela mãe como uma espécie de serpente me oferecendo a maça. Se ela me corrompeu ou me libertou, não sei até hoje. Às vezes, sinto falta da paz de espírito que sentia quando minha devoção era total para minha filha. Outras vezes, sinto que o sorriso que passei a carregar nos lábios me tornou uma mãe mais coerente e inspiradora. E você, já mordeu a maça?

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* A patrulha da maternidade não é uma entidade com CNPJ, mas paira sobre a mente das mães de primeira viagem, sob a égide do olhar de suas sogras e mães, responsáveis por estabelecer os padrões ideais (e bem mais altos do que elas próprias aplicaram!) de maternidade nas gerações mais novas.

** A escala mater de sono é o índice que mede o sono nas mães de crianças pequenas durante o dia. Variando entre 0 e 5, de zero sono à mortificada de sono, a média num dia comum é 2.5%. Nunca foi registrado índice 0% numa mãe.

por Deborah Goldemberg em colunas, Nove meses antes e novas mulheres depois.

Deborah Goldemberg é antropóloga e escritora, autora de Valentia (Ed. Grua, 2012), romance vencedor do PROAC do Governo de SP/2011 e finalista dos prêmios Jabuti e Machado de Assis (Biblioteca Nacional) em 2013. Seu primeiro livro para o público juvenil, Antônio Descobre Veredas (Ed. Biruta), saiu em 2014. Seus livros de estreia foram as novelas Ressurgência Icamiaba (Selo Demônio Negro, 2009) e O Fervo da Terra (Carlini & Caniato, 2009). É curadora na área de literatura indígena, coordena oficinas literárias em espaços culturais como Casa Mário de Andrade, Casa das Rosas, SESC Pinheiros e Livraria Cultura. É fundadora do projeto LITERARÍA de curadoria literária.