Sobre o filme ” Viva – A vida é uma festa”

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Talita Pryngler

Sábado chuvoso, fomos todos ao cinema assistir Viva – A vida é uma festa. O nome da nova animação da Pixar de cara já revela o tom do filme; festa, música, intensidade e amor. O filme é lindo, emocionante e conversa com todas as gerações porque a final a morte e as relações familiares são sempre um tema da vida, em todas as idades e em todas as culturas.

O filme infantil tem como eixo central da narrativa a manifestação cultural mexicana: El dia de los muertos, a celebração do dia dos mortos, o que para nós ocidentais soa bem diferente e desperta uma grande curiosidade. Celebrar o dia dos mortos, com flores, festa, música e oferendas fala de uma compreensão sobre a morte, e consequentemente sobre a vida, fora da leitura maniqueísta de céu e inferno. A narrativa elege simbolicamente outros elementos como estrutura para dar conta de representar o que culturalmente se vive no México. Há uma linda e iluminada passagem de flores que conecta os dois mundos e é nessa passagem que as almas transitam e podem voltar ao plano dos vivos quando são lembradas no dia dos mortos. As famílias homenageiam seus mortos, sem haver um tabu cultural, tão pouco uma atmosfera de melancolia e aridez. A morte é parte da vida, as lembranças, histórias, tradições permanecem na memória afetiva de cada família.

Outro traço da cultura interessante de destacar na narrativa é a estrutura matriarcal das famílias mexicanas. São as abuelas (avós) que decidem os rumos e as regras da família, e no caso dessa, existia uma proibição, passada por algumas gerações, em relação à música. A bisavó do nosso pequeno herói tinha sido abandonada com uma filha pequena pelo marido, pois ele havia decidido seguir a carreira de músico e nunca mais voltou. Desde então a música virou para essa família uma grande ameaça passada de geração em geração. O pequeno Miguel é o único que deseja romper com esta tradição, buscando seguir seu sonho de virar um grande músico.

O filme possibilita que os personagens familiares contem suas histórias, mergulhando nos sentidos, dores e amores de vários deles. Esta riqueza traz ao espectador a forte e complexa dimensão afetiva que existe entre todos os entes de uma família, que carregam medos, traumas, anseios, desejos, e uma transmissão inconsciente de questões transgeracionais. Quando todos podem contar suas histórias em função da afronta de Miguel, as dores e os afetos tem “permissão” para circularem. Um giro necessário acontece, há espaço para novas inscrições e o menino pode viver seu próprio caminho pertencendo a essa família.

Recomendo muito que assistam e que levem as crianças, o filme rendeu perguntas profundas e lindas sobre a vida, as relações e a morte aqui em casa.

por Talita Pryngler em colunas, experiências.

Talita Pryngler é psicóloga (PUC-SP), psicanalista (Sedes Sapientiae) com especialização em educação de 0 a 3 anos (ISE - Vera Cruz) em desenvolvimento motor (Núcleo do Movimento - André Trindade) e Intervenção preciosíssima de bebês e seus pais (Instituto Langage). Idealizou e coordena o Espaço Bebê da Hebraica, é consultora na área desenvolvendo projetos para primeira infância e atende em consultório particular crianças, adolescentes e adultos. Atualmente integra o corpo de professores do instituto Gerar de psicologia perinatal. É mãe de duas meninas e adora o universo da infância.