SUPER, MEGA, GIGA

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Vivian Wrona Vainzof

Cheguei no cinema para assistir a um filme que eu ainda não tinha escolhido. Algumas opções passam na sessão de três da tarde e umas poucas pessoas também aparecem por lá no mesmo horário que eu, no meio da semana. Comprei o ingresso, escolhi minha poltrona, tudo com muita facilidade. Mas no balcão da pipoca eu fiquei inerte. As opções de tamanho da pipoca que eu tinha para escolher eram: super, mega ou giga! A moça, educada, ainda tentou me convencer que a diferença de preço justificava levar a maior delas… mas e se eu só quero um saquinho pequeno, proporcional ao meu tamanho? Sentei sem pipoca, com um incômodo tamanho master-plus pipocando dentro de mim. Porque tanto exagero? Por que o “mais em conta” vale mais do que a justa medida do que eu quero e do que eu preciso? Que “conta” será essa afinal, que passamos a vida a fazer, sem levar em conta tantas outras coisas essenciais?

Tenho a sensação de que estamos vivendo diariamente em frente a um balcão de pipoca onde as alternativas são exageradamente maiores do que os nossos desejos verdadeiros, nossas necessidades reais.

Outro dia, meu filho menor pediu para entrar numa loja de brinquedos. Ele tinha guardado na carteira um dinheiro que juntou aqui e ali e quis ver o que poderia comprar com aquilo. Mas o que era pra ser ser um passeio agradável, uma conquista, acabou se tornando uma tortura. A quantidade de opções e estímulos na loja era tão alucinante que ele não conseguia escolher. Se pudesse, acho que pediria um pacote tamanho giga, só para sair de lá carregado, ainda que não soubesse bem de que.

Além do excesso de coisas, as crianças também estão carregando excessos de opções, de informações e de velocidade, o que está gerando grande estresse emocional.

A Revista Pazes publicou, num texto da psicóloga Jennifer Delgado Suarez, a experiência do professor norte-americano Kim Payne, que conclui que “as crianças em nossa sociedade, apesar de estarem seguras do ponto de vista físico, vivem mentalmente em um ambiente semelhante ao produzido em áreas de conflito armado, como se suas vidas estivessem sempre em perigo.”

Apenas desacelerando a rotina de crianças diagnosticadas com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, Payne notou, em seu estudo, um aumento significativo em suas habilidades acadêmicas e cognitivas.

A sugestão é simplificar a infância, enxugar os excessos, redimensionar as proporções. As principais recomendações, segundo o artigo da revista, são:

  • não encher as crianças de atividades extracurriculares
  • deixar tempo livre para o brincar livre
  • estar próximo e presente
  • garantir tempo suficiente de sono e descanso
  • reduzir a quantidade de informações, o que envolve um uso mais racional da tecnologia
  • simplificar o ambiente, apostando em menos brinquedos e certificando-se de que estes realmente estimulem a fantasia da criança
  • reduzir as expectativas sobre o desempenho, deixando que sejam simplesmente crianças

Para proteger o equilíbrio mental e emocional das crianças é necessário educar em proporções mais naturais, mais humanas do que esses tamanhos desmedidos e, aparentemente, “mais em conta” que, em vez de nos satisfazer, está nos dando indigestão.