Tirando os sapatos

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Um conflito corriqueiro para muitos pais e demais cuidadores de crianças pequenas é o momento de colocar os sapatos. Muitas vezes, a criança se recusa a calçar e nós, adultos, saímos atrás delas com o sapato na mão tentando convencê-las de quão importante é estar calçado para não ficar doente, não cortar os pés, etc…

No entanto, talvez muitos aqui não saibam mas existe uma sabedoria muito grande nas crianças quando elas preferem os pés descalços!

Você sabia que em cada um dos nossos pés temos 26 ossos? Pois é! Muitos ossos, muitas articulações que ficam boa parte do dia presos dentro dos calçados. Sim, pois por mais que os sapatos sejam confortáveis, eles estarão cobertos com um limite dado pelo calçado. E assim as articulações vão ficando menos móveis do que elas poderiam ser.

Nossos pés merecem nosso cuidado, afinal, como diz a canção “Meu pé, meu querido pé” cantada pelo ratinho tomando banho no Castelo Rá Tim Bum, ele nos aguenta o dia inteiro!

Importante para nos manter em pé, para nos sustentar, eles nos possibilitam andar, saltar, correr e tantas outras coisas! São nossas raízes no chão, nossa base. Por isso, muita atenção aos nossos pés para que eles estejam prontos, abertos, firmes para nos ajudarem sempre a descobrir infinitos repertórios de movimento que podemos experimentar e inventar.

Tão importante quanto escolher um sapato adequado para as crianças, é fundamental para seu desenvolvimento motor que a criança fique descalça e possa experienciar muitos “chãos” diferentes para ter estimulados todos os pontos de apoio do seu pé. E essa experiência não é só interessante para as crianças! Adultos também se beneficiam dos pés descalços. Andar descalço na areia ou até mesmo pisar descalço na lama, pode ser uma sensação bem gostosa para qualquer um.

Fazemos, então, um convite ao corpo brinquedo com o foco nos pés. Que tal brincarmos de conhecer nossos pés na nossa casa com os nossos filhos? Vamos tirar os sapatos juntos?

Brincadeiras com os pés descalços:

  • Chuvarada de pés: sentados com os pés apoiados no chão, as solas do pé batem e imitam um barulho de chuva. Depois com os calcanhares batendo, a chuva vira trovoada. E quando a chuva vai parando com as pontas dos dedos dos pés, fazemos a garoa.
  • Com as pernas esticadas os dois pés se movem de um lado para o outro parecendo o limpador do para-brisa do carro.
  • Abrir todos dedos dos dois pés. Será que se ajudarmos com os dedos da mão, os dedos do pé podem abrir mais? Afastando os dedos dos pés com a ajuda da mão, percebemos como nosso pé pode ficar mais aberto. Será que parece a pata de algum bicho?
  • Quem consegue fazer um “jóinha” (levantar só o dedão) com o pé? Quem consegue levantar só o mindinho?
  • Carona de pés; a criança com os pés descalços apoia seus pés nos pés dos adultos que irão caminhar dando uma “carona” para os pés da crianças.
  • Que tipos de texturas diferentes podemos pisar? Adultos e crianças podem investigar em casa lugares diferentes para experimentar pisar com os pés descalços. Será que pisar no tapete da sala, no chão gelado do banheiro, na bolinha de tênis, na terra, nas pedrinhas do quintal, na almofada a gente tem a mesma sensação? Qual lugar é mais gostoso?

O pé, por fim, pode receber massagem com creminho, com óleo, com carinho usando um pincel, um algodão. Tenho certeza que os pés de todos agradeceram muito esse cuidado!

por juliasantos em colunas, corpo brinquedo.

Julia Santos é integrante do grupo Balaio de pesquisa, ensino e assessoria em cultura corporal infantil e professora especialista de dança em escolas de educação infantil e ensino fundamental. É mestre em Artes pelo Programa Estética e História da Arte-USP. Atua também como criadora-intérprete na “ Cia Meu Corpo, Meu Brinquedo”, grupo de pesquisa e criação em dança para crianças.