A arte ajudando a entender a vida

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Talita Pryngler

O teatro é uma linguagem artística, das mais sofisticadas, que envolve todas as formas de expressão da arte: a interpretação, a expressão corporal, a mímica, a dança, movimentos circenses, a musicalidade da trilha e do corpo, a plasticidade do cenário e a ambiência do jogo de luz. O ator quando cria, empresta-se, dando forma ao seu personagem. Sente o peso, a dor, a alegria e a leveza da sua fala. Transforma a cena num campo, onde seus espectadores sonham, vivem, riem, choram, compartilham e expressam também seus sentimentos. O teatro conta com esse elemento fundamental na apresentação, o encontro com o público.

No último fim se semana fui assistir à peça NUMVAIDUÊ, em São Paulo, encenada pelo grupo de palhaços Doutores da Alegria e dirigida pelo querido e talentoso Gustavo Kurlat. O espetáculo se passa num hospital, cuja ambientação principal se dá através de alguns poucos elementos presentes nesse universo: cadeiras, seringas, luvas, máscaras, jalecos e lençóis. Todo o resto do cenário é construído pelos palhaços através das mímicas, sons e do convite à imaginação feito ao público de crianças, jovens e adultos. Os palhaços são capazes de trazer ao universo asséptico, frio e triste do hospital novos significados, imagens e sentidos, subvertendo os objetos que causam tanto medo nas crianças (e nos adultos também). Dessa forma, recriam o ambiente, trazendo a partir da linguagem lúdica da arte, uma maneira mais sensível e engraçada de abordar os temas difíceis do cotidiano de um hospital: a dor, o medo, a burocracia, a espera e a esperança.

A peça é composta por várias cenas, ou poderia também chamar de contos, abordado com humor algumas histórias do dia-a-dia dos médicos, enfermeiros, pacientes e funcionários do hospital. Cada um desses contos tem uma linguagem e composição cênica única fazendo com que seja acessível e surpreendente ao público de todas as idades.

A arte tem essa função, ela recorta cenas cotidianas e nos faz olha-las e senti-las por milhares de outros ângulos. Ela toca a nossa percepção consciente, e é também um canal de expressão do inconsciente. Eterniza alguns instantes da memória, mistura passado e presente e é capaz de nos ajudar a produzir novos sentidos. Ela acessa um campo, que não está nem no “mundo interno” nem no “mundo externo”, mas numa zona “terciaria” da vida psíquica a qual possibilita a expressão, a criação, a brincadeira, a fantasia, o devaneio. As crianças apreendem o mundo brincando, fantasiando e criando, os artistas são adultos que continuam a vivenciar o mundo com esta sensibilidade e olhar. O palhaço esconde o nariz para fazer aparecer todo o resto, o nariz vermelho lhe dá liberdade de encontrar com o outro e dizer o que ninguém diz. Ele ri, brinca, faz trapalhada e chora, humanizando e brincando com o que existe de mais comum, as cenas cotidianas da vida.

por Talita Pryngler em colunas, experiências.

Talita Pryngler é psicóloga (PUC-SP), psicanalista (Sedes Sapientiae) com especialização em educação de 0 a 3 anos (ISE - Vera Cruz) em desenvolvimento motor (Núcleo do Movimento - André Trindade) e Intervenção preciosíssima de bebês e seus pais (Instituto Langage). Idealizou e coordena o Espaço Bebê da Hebraica, é consultora na área desenvolvendo projetos para primeira infância e atende em consultório particular crianças, adolescentes e adultos. Atualmente integra o corpo de professores do instituto Gerar de psicologia perinatal. É mãe de duas meninas e adora o universo da infância.