Alinhamento e Balanceamento

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Vivian Wrona Vainzof

Stephen Kanitz disse, certa vez, que foi casado três vezes mas todas com a mesma mulher. Faz anos que li isso numa de suas crônicas e guardo essa passagem com um carinho especial. Além de ser uma perspectiva otimista e bem humorada para as crises no casamento, é também uma chave mestra em momentos que parecem sem saída.

O casamento pode ser um bálsamo para algumas pessoas mas ele desafia o equilíbrio emocional, já que é a única sociedade que estabelece um acordo de direitos iguais entre duas partes. Tendo em vista que as pessoas discordam, discutem, perdem a paciência e a razão, mudam de opinião, o cabo de guerra pode ser devastador. Romper a corda, muita vezes, também derruba cada um pra um lado, com tanta violência, que machuca tanto ou mais do que o impasse anterior. Por isso gosto da ideia de parar e poder recomeçar diversas vezes a mesma história.

Dia desses, levei as crianças num campo de batalha de Nerf - uma espécie de arena de paintball mas com balas de espuma. Lá pelas tantas, todos correndo, atirando, fugindo, escuto o grito da vitória: “te matei!!!”. Mas o menino matado respondeu com calma: “não valeu, eu estava de pause”. O vitorioso ficou sem reação. Aguardou que o outro terminasse de se organizar, de se recompor e recomeçaram a partida.

“Contra pause não há argumentos”, penso eu, tentando aprender com a lógica das crianças…

O menino tinha razão. Tudo na vida precisa de uma pausa, um tempo pra se ajeitar, pra clarear as ideias, redefinir os rumos, pra rever a estratégia.

Meus textos precisam de revisão. Contas precisam de revisão. Até o carro precisa de uma, a cada seis ou doze meses. Então, como podemos imaginar que o casamento segue fluido e suave depois de décadas? Quando um marido sustenta a família, mas já não pode sustentar o olhar; quando uma esposa dá presentes, mas não consegue dar um abraço apertado; quando um casal está junto na sala mas cada um no seu bate papo; quando dividem a cama e a conta do banco, mas não dividem suas fantasias e sonhos, não estaria na hora de revisar algumas engrenagens?

A lista de itens opcionais no orçamento da concessionária me deixa aflita. Filtro de ar e de óleo, lâmpada traseira, junta do dreno, vela da ignição… Peças que nunca vi de frente, a quem nunca prometi amor eterno, com quem não fiz planos de ser feliz têm seu lugar marcado no planejamento familiar. Há anos que o Wilson, consultor automobilístico, me avisa que está chegando a hora de agendar a revisão. “O prazo é o final desse mês, dona Vivian, para não perder a garantia”. O vozeirão ainda me alerta que, da última vez, não fizemos alinhamento e balanceamento, “seria bom cuidar disso dessa vez”...

Será que em casa eu me mantenho alinhada e balanceada? Será que estou prestando atenção nos meus filtros e freios? E quem vai me alertar que já é hora de revisar? Talvez eu tenha o número de telefone do Wilson, para perguntar como renovo a garantia de viver feliz para sempre.