E esse tal de lobo mau?

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Talita Pryngler

Fim de semana passado fomos assistir Os três porquinhos com Furunfunfun no teatro Alfa em São Paulo. O Furunfunfun, para quem não conhece, é um circo – teatro-musical fundado há mais de 25 anos pelo Marcelo e a pela Paula Zurawski. A dupla de atores e músicos conta a clássica história trazendo uma linguagem atual e engraçada agradando adultos e crianças. Antes do teatro de bonecos Paula e Marcelo cantam e tocam algumas canções do folclore brasileiro.

A história é bem antiga e conhecida mundialmente, sua trama carrega sentidos e simboliza diferentes estágios do desenvolvimento infantil, além de proporcionar aos pequenos fascínios e emoções diante da figura do lobo.

Afinal o que está por trás deste enredo? E esse tal de lobo mau?

A história começa num momento onde os três porquinhos cresceram e sua mãe lhes confia a importante tarefa de tomarem conta, cada um, de suas próprias vidas, tarefa esta simbolizada pela necessidade de construírem sua própria casa para se protegerem do lobo e dos riscos da floresta. Esta cena para mim já é importantíssima, a mãe porquinha confia em seus filhos e lhes dá a possibilidade de construírem suas casas cada um a sua maneira. O mais novo então decide construir uma casa de palha mais fácil e rápida, pois deseja brincar, não se preocupa com o lobo e com os perigos da realidade. Seu impulso está mais voltado para o princípio do prazer buscando a satisfação imediata, não levando em conta o princípio da realidade. O porquinho do meio, um pouco mais maduro, decide construir uma casa de madeira um pouco mais forte, ele não desconsidera o perigo do lobo mau, mas também não quer perder muito tempo com esta tarefa. O porquinho mais velho maduro e responsável, ocupa o papel central da história onde a moral quer nos conduzir, passando a mensagem: devemos trabalhar duro, adiar o prazer imediato, pois sabemos que os perigos da floresta onde mora o lobo podem nos matar.

Mas se o lobo é assim tão perigoso, porque as crianças vibram tanto com ele? Porque repetem tantas vezes a brincadeira de se esconderem e fugirem do lobo? O que o lobo mau representa para elas neste momento? Em qual idade está mais forte a identificação com qual personagem da história?

O lobo aqui é mau, impulsivo e voraz devorador de porquinhos fofinhos, os quais estão cada qual no seu estágio de desenvolvimento, construindo suas casas para se protegerem destes rompantes. As crianças vivem o embate entre o desejo imediatista e o adiamento do prazer a todo momento. A medida que crescem as regras vão sendo cada vez mais internalizadas, já que estas nos protegem de sermos tomados pelos nossos próprios excessos, mas há sempre lugar para o deleite do prazer. Ou seja, somos constituídos pelos impulsos vorazes das pulsões que vão ganhando contornos à medida que nos tornamos seres educados e culturais. O lobo e cada porquinho representam uma fase desse processo de desenvolvimento e amadurecimento e é esta a moral que a história quer nos passar. Isso não quer dizer que devemos ser sempre responsáveis e trabalhadores, pois sabemos que existe nas crianças e também em nós adultos uma força pulsional que insiste. A questão está na saída que encontramos para estes nossos embates.

Podemos dizer então, que vivenciar através da história o encontro do lobo com os porquinhos, que sentem seu sopro forte capaz de, talvez, derrubar a casa que construíram com seus próprios recursos para se protegerem, nos remete aos nossos processos de crescimento e desafios na vida.

E você já se viu diante do seu próprio lobo? ​

por Talita Pryngler em colunas, experiências.

Talita Pryngler é psicóloga (PUC-SP), psicanalista (Sedes Sapientiae) com especialização em educação de 0 a 3 anos (ISE - Vera Cruz) em desenvolvimento motor (Núcleo do Movimento - André Trindade) e Intervenção preciosíssima de bebês e seus pais (Instituto Langage). Idealizou e coordena o Espaço Bebê da Hebraica, é consultora na área desenvolvendo projetos para primeira infância e atende em consultório particular crianças, adolescentes e adultos. Atualmente integra o corpo de professores do instituto Gerar de psicologia perinatal. É mãe de duas meninas e adora o universo da infância.