Hello, Brasil!

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Vivian Wrona Vainzof

Estou lendo Hello Brasil, de Contardo Caligaris, na varanda de casa, numa tarde quente. O psicanalista italiano morou e trabalhou por muitos anos em Paris e vai me contando com o sotaque que sempre escuto lendo autores estrangeiros, sobre a sua própria descoberta do Brasil, sua chegada nos anos 80, suas percepções e considerações de um viajante europeu no encontro com os tupiniquins.

Enquanto leio o relato que revela o espanto do escritor com as peculiaridades da infância nesse país, da janela do apartamento vizinho escuto, há quase meia hora, uma criança que grita inconformada com alguma coisa que me escapa. A mãe está tentando contornar a situação mas fica claro quem dá as regras e quem se sujeita (ou tenta não se sujeitar) a elas. Engulo em seco, pensando na naturalidade com que compactuo com a cena, não porque concorde, mas porque tolero sem tanta estranheza.

Página por página, ele me confronta com as familiaridades e as singularidades da sociedade brasileira, sobretudo do reinado das nossas crianças, os vizinhos dando vivas vozes a tudo, ao vivo.

Caligaris flagra crianças que correm por entre as mesas de um restaurante de luxo, sem serem incomodadas. Procura mas não acha um cliente que se queixe, um garçom que as repreenda. E quem de nós está se queixando ou repreendendo os próprios filhos? Ele se surpreende com a superioridade com que fazem pedidos imperativos às domésticas e aos garçons. Herança colonialista? Ele não entende os hotéis, restaurantes, clubes, condomínios que oferecerem atividades infantis dirigidas, apartadas da convivência familiar, como se crianças não soubessem brincar sozinhas. Mas sabem? E com o fato de quase toda aprendizagem por aqui ser lúdica… O lazer e o prazer como carros-chefe da vida.

“O Brasil é o paraíso das crianças”, pondera ele.

Espio para fora da janela mas nao consigo enxergar esse lugar ideal. Educar não é apenas censurar, corrigir, castigar, mas a autoridade, os limites e a subordinação definem lugares de cada um na familia. E de qualquer forma, nunca houve um paraíso sem proibição, porque a interdição ajuda a desejar.

O autor nota nossa dificuldade brasileira de reprimir, como se quiséssemos manter as crianças no paraíso ideal.

Aos seus olhos, não parece haver aqui o prazer do esforço, o gosto pela conquista, “o interesse pelo gozo limitado e trabalhoso da aprendizagem”.

Na semana passada meu filho me pediu para parar as aulas de tênis. “Mas você adora”, retruquei. “Adorava. Agora já aprendi tudo e as aulas são sempre iguais, é cansativo”. Ele não se decepcionou, não desistiu de se esforçar, ele apenas parou de desejar e acredito que esse seja o nosso maior risco como pais permissivos. Aos 9 anos, aprendeu tudo e se cansou.

Acho que também já estou cansada da gritaria na varanda. Da gritaria de uma geração inteira que pede, a todo momento, para viver no paraíso perdido de quando a paternidade era lei e por isso tranquilizava os nossos espíritos.

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