Matutaí com o José Bueno: lições do Aikido

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Vivian Wrona Vainzof

Quando conheci o José Bueno, ele usava um quimono branco e uma longa saia preta que inspirava respeito. E que homem usa saia longa como indumentária, em São Paulo, nesse século, se não para esconder segredos de alguma profunda sabedoria? Depois desse encontro, tive o prazer de sentar com ele para um café com prosa. Dessa vez ele não usava saia, nem sua faixa preta de samurai, mas deixou no ar a aura de mestre, com tudo o que dizia. Fui sabendo dos segredos da filosofia do Aikidô, que regem os passos da vida dele. Ao contrário do que eu poderia esperar, o discurso era pura delicadeza. Quantas surpresas se escondem atrás dos nossos preconceitos… Quantos guerras criamos, inclusive com os filhos e aqueles que mais amamos, em nome da paz?

O Bueno também é arquiteto, artista, consultor e professor. Ele reúne habilidades necessárias a cada um e a todos esses ofícios: o olhar atento, a escuta apurada, a compreensão do ambiente, a comunicação clara, limpa e acolhedora, a tradução dos sentimentos, e vai, assim, inspirando as pessoas que cruzam os seus caminhos.

Conheça um pouco mais do que ele faz e pensa lendo essa entrevista e também no nosso encontro, no próximo dia 7/11 em São Paulo.

  1. Você usa a linguagem do Aikido como ponto de partida para inspirar pessoas a enfrentar o inesperado com elegância, criatividade e alegria. Qual ponte você pretende criar no dia 7/11 entre essa a sua experiência e as dos pais e mães que estarão na plateia lhe assistindo? Crianças são a melhor escola do mundo para aprender a lidar com o inesperado. Elas são espontâneas, surpreendentes, curiosas e estimulam os adultos a praticar a presença. A filosofia do Aikido pode ser praticada em cada interação com as crianças a partir de três princípios fundamentais: observar, conectar e conduzir. Tudo começa no estado de profunda observação, que podemos chamar também de empatia. Observar nos leva à conexão afetiva. Assim, o exercício de conduzir e também deixar se conduzir pelos filhos torna-se elegante, criativo e alegre.
  2. O que, na sua opinião, contribui para o empoderamento e amadurecimento de crianças e adolescentes? Acreditar e apostar nos sonhos deles é um bom exemplo? Mais que acreditar e apostar nos sonhos de crianças e adolescentes, ouvi-los sem julgamentos e críticas é um ótimo jeito de contribuir para o desenvolvimento de cidadãos confiantes em si mesmos. Perguntas que os levem a refletir sobre seus sonhos podem ajudar ainda mais. Por que você quer isso? O que te leva a sonhar isso? Como você saberá que seu sonho está se realizando? Quem vai se beneficiar do seu sonho realizado? Quem você acha que te ajudará na realização do seu sonho? Acredito que pais, mães e educadores em geral fazem melhor com boas perguntas que com boas respostas.
  3. Quais outras atitudes dos pais são importantes para ajudá-los a ter mais segurança e confiança em si mesmos e como isso reflete no dia a dia (pode nos dar algum exemplo real que tenha presenciado)? Crianças observam os adultos o tempo todo, particularmente os pais. Pais inseguros e com pouca confiança em si mesmos devem ter muita dificuldade em ajudar seus filhos a serem seguros e confiantes. Novamente, acredito que o exemplo é a chave. Certa vez na beira da piscina do clube presenciei uma menina de uns cinco anos insegura em mergulhar de cabeça. A mãe, deitada sob o guarda-sol a instruía: ponha os dedinhos bem perto da borda… dobre os joelhos… junte as mãos e braços acima da cabeça… dobre o corpo, olhe para baixo… agora de um salto para frente ... . Mas a menina seguia insegura em saltar. A certa altura, ela pediu a mãe para vir ao lado dela mostrar como fazer. E sua mãe respondeu: filha, eu não sei mergulhar, mas eu te contei direitinho como eu sei que se deve mergulhar.
  4. Como os pais podem estimular a busca pela espiritualidade e o autoconhecimento em seus filhos? É realmente possível direcioná-los nesse sentido? Acredito que o melhor jeito é estimular o contato com a natureza, com a arte e com o próprio corpo. Espiritualidade e autoconhecimento não é somente um processo cognitivo, mas profundamente sensorial. Apreciar os cheiros, os sons dos instrumentos, a água, as cores, o prazer do corpo em movimento, observar o nascimento das flores, as formigas, as pedras dos rios e tudo que a vida transborda em suas manifestações, são o campo fértil para a compreensão do valor sagrado da apreciação, da gratidão e do amor por tudo que é vivo.
  5. Você pode afirmar que a inteligência emocional de adultos e crianças pode ser despertada e alimentada com a prática das artes marciais? Que outras atividades físicas - ou qualquer outra prática regular -, na sua opinião, cumprem melhor essa função? A maturidade emocional pode ser desenvolvida de inúmeras maneiras. Talvez uma das melhores maneiras seja a convivência e aprendizagem desde cedo com o que é diferente e diverso de quem somos e com quem vivemos no núcleo familiar. Eu passei minha infância no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro. Brincava muito na rua, onde a mistura social era um fonte imensa de aprendizagem. Quando vejo crianças e jovens restritos à convivência pobre em diversidade, sinto que essa opção pela segurança impacta negativamente a musculatura emocional para lidar com o diverso. Alguns sintomas já são percebidos na vida adulta quando estranhamento e ódio ao diferente ganham forma de preconceito e violência. Na cultura que aprendemos no Aikido, alguém que se oponha a mim não é um inimigo, nem alguém que deva ser combatido, controlado ou derrotado. Na prática, da arte Aikido, que funciona como um laboratório sobre a vida, aprendemos que o outro é apenas alguém diferente de mim e não um inimigo ou obstáculo ao meu desenvolvimento. Talvez aquilo - ou aquele - que chamamos de “problema” seja a própria fonte do meu desenvolvimento! Aprender a lidar de um modo inteligente e sensível com oposições, contrariedades e resistências é uma preciosidade na formação cidadã. Todas as atividades físicas que, ao invés de alimentar apenas o espírito competitivo, estimule o trabalho em equipe, a persistência, a sensibilidade e a resiliência para se recuperar de perdas e, especialmente, a compreensão da vida como um jogo que jogamos juntos, cumprem a função de educar pessoas para um mundo desejável de coexistência e amor.

Perfil
José Bueno: Arquiteto e urbanista, mestre em Aikido e facilitador com trinta anos de experiência em programas de desenvolvimento humano em empresas e universidades . O melhor papel de Bueno, segundo ele mesmo, é o de faixa preta em criar pontes. Com essa metáfora, ele promove suas buscas por formas colaborativas de interação entre as pessoas, principalmente fora do tatame. Essa será uma oportunidade de seguir seus passos de mestre, numa travessia que pode aproximar pais e filhos, estabelecendo, nessa relação, uma coreografia mais harmoniosa, com menos embates e mais encontros positivos, construtivos e reveladores.