Palavras mágicas

avatar de Vivian Wrona Vainzof
Vivian Wrona Vainzof

A mulher vinha de bicicleta pelo calçadão, num dia quente e nublado. Não era jovem nem velha, nem esportista nem turista, só pedalava contra o vento na companhia do mar. Ia sempre em frente como toda gente que passava por lá.

Um grupo volumoso também passeava papeando, distraídos. Pararam pra uma foto.

Sentaram no banco que dava as costas para a orla. O filho menor demorou-se a notar. Quando viu todos posando e sorrindo, correu de volta, atravessou apressado e foi então que os dois se encontraram.

Foi um belo encontrão! A bicicleta bambeou, o menino foi para o chão, mãos tremeram, pés se arrastaram, joelhos sangraram, bocas se abriram e fecharam, olhares cruzaram-se em todas as direções. Entre os presentes, na sua maioria mães, acredito que o silencio condenava a mulher. Mas o pai se antecipou para socorrer igualmente os dois e, depois de se assegurar que todos passavam bem, desculpou-se pelo filho: “sinto muito. Ele deveria ter prestado mais atenção”.

Segui caminhando com a cena se repetindo na minha cabeça. E se fosse o meu filho? Estou quase certa de que ouviria minha leoa rugindo em proteção da cria. Mas e se estivesse eu pedalando? Será que aceitaria desculpas de um pai, cujo filho, acabei de atropelar? Será que eu me desculparia por pedalar em linha reta numa via permitida? Será que alguém tem alguma culpa, nessa situação? E em outras? Será que estamos economizando nossas gentilezas?

Por favor, com licença, desculpe, obrigado. Desde cedo nos preocupamos em ensinar aos filhos essas palavras de etiqueta. Vejo crianças que mal andam e pouco falam, balbuciando sílabas que ressoam como atestado de boa educação. Hoje mesmo uma cena dessas me chamou a atenção: o irmão mais velho tropeçou nos pés do pequeno, que caiu no chão. Levantou indignado e soltou o braço no maior, que pôs-se a chorar. A mãe interveio: “vou contar até três e vocês pedem desculpas”. O menor saiu na frente: “tupa”. Trocaram abraços e viveram felizes até o próximo tropeço. Mas imagino que a cena se repita. Porque nenhum deles percebeu de fato o que causou tristeza no outro. Nenhum deles sentiu identificação com o que disse, nenhum deles pareceu “sentir muito”. A palavra “desculpa” pulou da boca dos meninos, pingou no chão e sumiu como perdigoto.

Acredito que desculpar-se eleva, agradecer pacífica, ser gentil contamina. Recentemente, desenvolvi uma técnica assombrosa, uma espécie de agressão às avessas. Funciona como um concentrado de “Porfavor-comlicença-desculpe-obrigada”. Basta uma dose para me sentir acolhida sem humilhação e poder acolher sem arrogância. A ideia surgiu quando combinei com uma amiga de irmos juntas ao lançamento de um livro. Eu estava lá perto, queria ir cedo, mas ela preferia depois. Então voltei pra casa, me arrumei e esperei. Uma chuva forte atrapalhou o trânsito naquele dia, a hora foi passando, o horário combinado ficou pra trás e eu esperei. Uma, duas, talvez três horas esperando, pronta, até que liguei. Ela teve preguiça, talvez desistisse de ir, será que eu ficaria muito chateada? Fiquei muito chateada! Saí franzindo a testa, bufando. Mas preferi mudar o rumo desse trem que atropela sem pedir licença e nem se desculpa, porque ele vinha na minha direção! Desviei o trilho. Fugi da raiva que me inflava das acusações que só me davam razão para sentir ainda mais raiva. Ao contrário, quando cheguei - fui a última pessoa a chegar na loja naquela noite - abracei a orgulhosa escritora que autografava os livros e entreguei, mais orgulhosa que ela, os dois exemplares que tinha acabado de comprar, um pra ler e o outro para agradecer a amizade que não tem preço e que não sucumbe às preguiças, mesmo quando esquecemos de pedir desculpas. Todos falhamos uma hora ou outra.

Todos mudamos de ideia, deixamos alguém na mão sem perceber, atravessamos distraídos, esbarramos, atrasamos, erramos. É preciso saber pedir desculpas. É preciso agradecer de coração.

Mais ainda, gosto de me desculpar e de agradecer até mesmo quando a vida atropela e esfola nossos joelhos, porque isso pra mim tem gosto de vento no rosto, tem cheiro de brisa e refresca a nossa existência.