Tudo que a gente precisa é de graça

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Talita Pryngler

Um cenário simples, com uma iluminação estonteante, em formato de arena, contornado por instrumentos e elementos da cultura Hindu, africana e brasileira junto a compridos gravetos e longos tecidos constroem o palco para o musical Buda da Banda Mirim. Esta banda, que há mais de treze anos vem propondo uma maravilhosa composição entre teatro e música, nos brinda com esta produção musical onde os atores são grandes contadores de histórias, e ao mesmo tempo são parte de uma imensa banda, com instrumentos e arranjos dos mais diversos, criando suas próprias canções e enredo. Nessa montagem, que é fruto de três anos de pesquisas do grupo, o musical convida crianças, jovens e adultos a mergulhar na história milenar de Sidarta, um príncipe indiano que alcançou a iluminação e se tornou Buda.

A história começa falando do imenso amor entre um rei e uma rainha, e que desse amor é gerado um bebê, o príncipe Sidarta. A rainha, prestes a parir, toma o rumo do palácio de seu pai como era de costume nessa cultura à época. No meio do caminho ela sente que está na hora do bebê nascer e ali, numa cena maravilhosa permeada por confiança, força e intensidade, tem o seu bebê. Toda essa beleza e representação se dá através dos gestos, da música e de um imenso pano que se transforma em carruagem, barriga e um filho nos braços - não pude deixar de notar o fascínio da minha filha de seis anos diante desta cena, um tema tão misterioso e enigmático para ela e para nós, dar à luz. Sete dias após seu nascimento o pequeno príncipe se torna órfão de mãe, o embrulho de tecido é entregue ao pai, que lhe promete somente riquezas e alegrias. A narradora, no momento da passagem da mãe, diz que ela partiu serena e sem dor, como se tivesse cumprido sua missão. O nascimento e a morte são tratados com beleza, intensidade e leveza, assim como o amor e a velhice trazendo ao texto ensinamentos do budismo como a ideia da impermanência.

O mais interessante é que a composição do musical mistura figuras e elementos de uma história mítica e milenar com músicas e ritmos bem atuais, trazendo ao espetáculo um ar bem humorado e contemporâneo. As falas ecoam, e despertam uma conversa sobre os temas, uma conversa interna, sobre estes eternos enigmas humanos. Uma conversa com os filhos, que vivem cada um ao seu tempo suas perguntas e maneiras de construírem as respostas. Uma conversa com o companheiro de vida, aquela pessoa que escolhemos para partilhar esses caminhos tão cheios de luz e sombra, que ao mesmo tempo que está junto, sabe que cada um tem a sua própria trajetória e missão.

Não percam este espetáculo!

por Talita Pryngler em colunas, experiências.

Talita Pryngler é psicóloga (PUC-SP), psicanalista (Sedes Sapientiae) com especialização em educação de 0 a 3 anos (ISE - Vera Cruz) em desenvolvimento motor (Núcleo do Movimento - André Trindade) e Intervenção preciosíssima de bebês e seus pais (Instituto Langage). Idealizou e coordena o Espaço Bebê da Hebraica, é consultora na área desenvolvendo projetos para primeira infância e atende em consultório particular crianças, adolescentes e adultos. Atualmente integra o corpo de professores do instituto Gerar de psicologia perinatal. É mãe de duas meninas e adora o universo da infância.