Educar é preciso, por Matutaí

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Vivian Wrona Vainzof

Mãe que não consegue dizer “não” ao filho pede à escola que proíba pipoqueiro na porta.

A reportagem publicada esta semana pelo jornal O Globo contava o episódio da mãe de um aluno, num colégio tradicional do Rio de Janeiro, que pediu à direção para proibir a presença do pipoqueiro na hora da entrada e da saída das crianças, já que seu filho, proibido por ela de comer pipoca, insistia em comprar, toda vez que cruzava com o carrinho.

A leitura me levou de volta às minhas saídas do Lourenço Castanho, há mais de 30 anos. Na época, o Jornal Nacional havia noticiado que as balas vendidas na porta das escolas podiam estar contaminadas com drogas, e a proibição dos meus pais, de parar no sorveteiro antes de entrar no carro, foi tão veemente, que não me ocorre nenhuma ocasião em que eu tenha sequer pedido pra olhar.

Fui uma criança obediente. Não acredito que muitas outras famílias tenham sido poupadas da clássica dobradinha diária do “pooooor favooor-já disse que não”. Lembro com clareza da minha amiga Bia, uma morena baixinha, sisuda e magricela, cujo motorista parava religiosamente para comprar alguma coisa. Ele talvez não soubesse do noticiário, e os pais da Bia, possivelmente, não sabiam do rotineiro consumo… Casos extremos à parte, fato é que pipoqueiros e sorveteiros circulam por todos os cantos do país, assim como crianças e pais encenam a clássica dobradinha há séculos. Não fosse assim, e perderíamos valiosas oportunidades de educar.

Mais preocupante, porém, do que a incapacidade de mães e pais imporem seus limites aos filhos, é perceber uma expectativa de que o mundo se dobre a seus pés.

Mas o que seria, então, educar, se não a permanente possibilidade de dialogar, ceder, negociar, impor, cobrar, explicar de novo e de novo e de novo? Educar deveria ser, acima de tudo, ajudar a pensar pela própria cabeça. Suponho que evitar todos os embates ou controlar rigidamente o ambiente em que estamos inseridos é impedir os filhos de crescer. Outros sorveteiros, pipoqueiros e baleiros sempre cruzarão nossos caminhos. Não creio que deveriam ser todos extintos para evitar impasses com nossos filhos.

Qual é o limite da nossa prepotência como mães e pais, para evitar a frustração dos filhos e, com ela, tantos aprendizados? Levando essa ideia ao pé da letra, eu pediria à CBF para anular o campeonato brasileiro, depois do 2x1 do Bahia em cima do São Paulo na semana passada, só para poupar meus filhos da tristeza de ver seu time do coração, na zona do rebaixamento, como bem sugeriu @tecomedina99 ontem, na @CBN.

É na infância que se imprimem valores decisivos da personalidade de alguém.

Uma mãe que educa não pode se dar ao luxo de privar o filho de um não, claro que não! Nem se esquivar de conflitos, em nome do bem estar dos pequenos, esperando que o mundo a encubra e acoberte. Menos ainda, que o entorno se deforme ao seu dispor.

Acreditar nisso seria a revelação de que nossa sociedade trilha um caminho estranho, duvidoso e arriscado - como deveriam ser mesmo os caminhos que fazem amadurecer! Mas aonde é que queremos chegar, sem bala, sem pipoca e sem educação?