Desligando o wi-fi para conectar-se com a vida

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Daniela Degani

Na minha última coluna (Desplugando as crianças em 3..2..1) falei sobre os efeitos negativos da exposição precoce das crianças pequenas aos eletrônicos e a dificuldade de concentração dos alunos, agravada pelo excesso do “tempo de tela”, ou seja, o quanto do dia é gasto diante de um aparelho, reagindo a estímulos virtuais/digitais. Também comentei algumas maneiras de abordar e lidar com o assunto, de modo a preservar nas crianças sua capacidade de foco e atenção.

O tema é bem amplo e complexo, justamente por envolver mudança de hábitos. E muitas dessas mudanças têm que partir de nós, adultos, pais e responsáveis.

Neste final de semana, levei meu filho de 2 anos para brincar no parquinho. Uma menina, que devia ter por volta de 4 anos, logo se aproximou, interessada no brinquedo que meu caçula havia levado, um lança dardos de espuma. Ela pediu para brincar, meu filho concordou e entregou a ela o brinquedo (o que me surpreendeu pois há bem pouco tempo ele ainda estava na fase do “é meu!”). Um atirava o dardo e ambos saíam correndo atrás, rindo. Iam se revezando. O pai da menina estava sentado ao meu lado no banco, virei-me em sua direção, quase que sem pensar, uma reação espontânea, para fazer um comentário do tipo “olha que graça esses dois!”. Mas o pai estava com a cabeça abaixada, olhar colado no celular, e os dedos se moviam rapidamente digitando.

Com sentimento de tristeza em pensar no momento bonito que esse pai estava perdendo, misturado com uma cumplicidade do tipo “puxa, eu sei o que é ter que trabalhar de fim de semana…”, acabei me calando, guardando o comentário para mim.

Alguns minutos depois, percebi que a menina estava tão empolgada com o brinquedo, que o monopolizava. Escutava meu filho pedindo “amiga, deixa eu”. Ela jogava e ambos corriam, ela sendo maior chegava antes, e jogava de novo sem dar chance pro meu pequeno. Observei por uns instantes, meu filho pediu mais algumas vezes pela sua vez de jogar, mas sem resultado. O pai? Colado na tela. Levantei-me e, com gentileza e carinho, conversei com os dois explicando que é muito bom brincar juntos e que se revezassem a vez a brincadeira ficaria mais legal.

Volto ao banco. Minutos depois percebo uma intensificação nos movimentos do pai ao lado. Logo em seguida escuto um “droga, perdi!”. Ele se levanta, chama a filha e vai embora.

O que presumi ser trabalho era, na verdade, um joguinho. E muito mais do que perder uma partida, quando estamos alienados do que acontece ao nosso redor, independente do motivo, perdemos a chance de viver momentos preciosos. Perdemos a chance de notar algum comportamento ou atitude das crianças que pode servir de base para uma conversa sobre empatia, cuidado com o outro, carinho etc. Fiquei pensando quantos momentos desse eu mesma não perdi, absorta em qualquer outra coisa…

“O melhor presente que você pode dar a alguém é a qualidade da sua presença.” Essa frase, atribuída ao autor Robert Dilts, não poderia estar mais certa, especialmente quando se trata das relações pais-filhos, professores-alunos, avós-netos. Se quisermos crianças atentas e capazes de se concentrar, precisamos estar, nós mesmos, atentos ao que acontece, dando o exemplo.

Veja a seguir 3 atitudes simples que ajudam no cultivo da qualidade da presença nas relações interpessoais:

  • Olho no olho: a nossa postura corporal diz muito a respeito do nosso estado interior. Ao olhar nos olhos da criança estamos comunicando a ela: “estou aqui, inteiro, neste momento, para você”
  • Escutar com o coração: é a intenção genuína de “ouvir para entender” em oposição ao “ouvir para responder”
  • Estar de corpo e alma: é tão comum estarmos fazendo uma coisa, com a mente em outro lugar! Quando estiver interagindo com uma criança, seja brincando, conversando sobre a escola ou simplesmente fazendo companhia, pergunte-se “onde está minha mente neste momento? ”. Caso a resposta seja “no trabalho, no que vou fazer em seguida, na lista de supermercado ou em outro lugar que não aqui”, minha sugestão é: relaxe, respire mais profundamente e na expiração aproveite para soltar todas as tensões, preocupações e distrações, trazendo a mente de volta para o momento presente.

Com atitudes simples como estas vamos exercitando esse grande presente que podemos dar aos nossos filhos: a nossa presença amorosa