Movida pela mente

avatar de Vivian Tempel Wroclawski
Vivian Tempel Wroclawski

Li em poucos dias a história do Ricky, contada no emocionante Movido pela Mente. Ele foi meu contemporâneo de faculdade e a imagem que eu conservava na minha memória era de um moleque animado, cheio de energia, rodeado de amigos, com um copo de cerveja na mão. Do moleque, não parece ter sobrado muita coisa e cerveja é um luxo que ele não pode mais desfrutar. O resto, segue igual.

Ricky Ribeiro. Créditos: Mobilize Brasil.
Ricky Ribeiro. Créditos: Mobilize Brasil.

O Ricky tem ELA, esclerose lateral amiotrófica, diagnosticada há cerca de 10 anos, quando começou a perder os movimentos das pernas. Hoje ele vive no seu room office, rodeado de aparelhos, cuidadores, e do amor dos amigos e da família, que dão o suporte necessário para ele comandar, apenas com o movimento dos olhos, o Mobilize - maior portal de mobilidade do Brasil. Mobilidade, não acessibilidade. Afinal, porque pensar na sua condição individual, se ele pode usar a potência da sua mente para entregar um mundo melhor para a sociedade?

Virei fã do Ricky e da família dele. Uma família que briga e discute como qualquer outra, que se une, se apoia e redefine prioridades como muitas que passam por grandes turbulências, mas acima de tudo, uma família que escolhe sempre olhar o bom que a vida oferece, como nem tantas outras.

“Eu apenas possuía uma vocação enorme para a felicidade” é uma frase repetida algumas vezes ao longo do enredo. No livro, há uma passagem sobre a obra Arte da Felicidade, escrita por Dalai Lama, onde ele fala sobre cada pessoa ter um nível de felicidade padrão, de rotina. Bons acontecimentos elevam esse patamar levando a sensações passageiras de alegria e satisfação. Da mesma forma, acontecimentos ruins trazem desânimo e tristeza. Ambos passam, e logo voltamos ao nível de felicidade que estamos acostumados.

Fiquei pensando se haveria alguma maneira de ajudar os filhos a terem, como padrão, um nível elevado de felicidade. Se o afeto que oferecemos poderia ter algum impacto, elevando essa barra. Mas no meu devaneio, apenas pude concluir que o que não ajuda é o excesso de oferta de bens materiais. Esses sim, são capazes apenas de gerar sensações passageiras de prazer.

Enquanto degustava o livro, ia compartilhando com meus filhos algumas passagens e alguns desses pensamentos, talvez na esperança de que pudessem dar outra proporção para bobagens do dia-a-dia, ou pelo desejo de que se sentissem tocados pela fraternidade e cumplicidade entre os irmãos, ou quem sabe com o intuito de despertar neles empatia e apresentar um inspirador exemplo de superação, persistência, criatividade e resiliência.

Um dos ensinamentos que incorporei aos diálogos em casa tem a ver com a sensibilidade que o médico teve ao comunicar o diagnóstico da ELA para a família. Ele os orientou a não sofrer antes pelos problemas que iriam surgir, pois teriam a sabedoria para lidar com as situações a cada nova limitação que aparecesse. Buscar aconselhar as crianças a não sofrerem por antecedência, é algo que eu já praticava, mas a segurança de que terão sabedoria para lidar com cada situação, dará outra perspectiva para a coisa.

Ter um olhar positivo para a vida, lutar pelos sonhos, levantar depois das quedas, levar o outro em consideração, cultivar amigos, ter prazer em estar em família, acreditar em si mesmo, batalhar por um mundo melhor, são alguns dos importantes aprendizados que o Ricky trouxe para mim. Espero ter a sabedoria de viver com esse norte e de inspirar meus filhos para que escolham viver assim também, sem que seja necessário receber uma notícia trágica para valorizar nosso padrão de felicidade.