Os pais, as crianças, e os desafios corporais

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Silvia Lopes

Andando pela rua, a criança vê um portão e para. Se pendura nele e começa a andar, indo devagarinho, colocando um pé depois do outro entre as grades até chegar ao fim. O adulto, ansioso e com pressa, fala: Vai logo! Sem perceber e sem entender que perde um precioso momento de acompanhar e compartilhar um desafio corporal da criança.

No corre-corre do dia a dia, acabamos não enxergando as sutilezas dos desafios corporais que a criança vê.

A criança está sempre em busca de explorar o mundo, descobrindo novas possibilidades e desafios corporais. O corpo é seu grande veículo de comunicação, portanto é fundamental que os pais sensibilizem seu olhar para essa potencialidade, compartilhando, explorando e brincando com a criança e seu corpo no dia a dia.

Ela cria os próprios obstáculos para brincar com o corpo. Um exemplo muito comum: a criança vê um muro e quer subir, equilibrar-se e, no fim, pular. Alguns são bem grandes, outros são pequenos, uns mais largos, outros fininhos, baixos ou altos. A criança mais velha já entra no desafio de virar estrela, dar cambalhotas, fazer parada de mão na parede. Em casa, vê a porta como parede de escalada e quer subir com os pés apoiados no batente até o alto. Depois que aprende a virar uma estrela, ela se desafia mais, faz com uma mão só, depois sem as mãos. Faz em dupla.

Tem um desafio bem grande que é fazer a parada de mão em grupo. O primeiro faz a parada na parede e abre bem a perna, e os outros vão em seguida, diminuindo a abertura das pernas. Depois que o último fez a parada, todos ficam parados um pouquinho e, então, saem um de cada vez. Fica parecendo uma aranha. É muito desafiador.

Cai, levanta, machuca e continua se desafiando. Uma criança estimula a outra.

Essas experimentações fazem parte do crescimento e são essenciais não apenas para o incremento das habilidades motoras da criança mas também fazem parte de seu desenvolvimento afetivo e psíquico. Os desafios e as brincadeiras com o corpo ajudam a criança a se encorajar, a enfrentar e a perder seus medos e à satisfação de fazer algo que não conseguia antes.

Nós apressamos nossos filhos no dia a dia e, muitas vezes, não nos damos conta das possibilidades e desafios que a criança enfrenta corriqueiramente. É muito importante que a gente valorize suas descobertas e suas conquistas.