A arte da escuta

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Vivian Wrona Vainzof

O que será que me disseram hoje e que não fui capaz de escutar? Talvez eu tenha ouvido, mas escuta é uma outra coisa, que começa exatamente com o que não foi dito. Cláudio Thebas, no seu O palhaço e o psicanalista, (coautoria de Christian Dunker) diz que “escutar é uma pesquisa sobre a verdade do que está sendo dito”. Agora me pus curiosa sobre a verdade do que escrevo… Quem será que me escuta e estaria investigando o que eu deixo de escrever?

Debruçada nas páginas, pendurada nas linhas é muito difícil ter o desprendimento necessário para escutar os cochichos das palavras, fofocando sobre tudo o que não querem dizer. Mesmo quando personagens se delatam, o interesse escancarado por qualquer assunto algema as possibilidades de escuta. Nossa prisão é achar que sabemos, achar que entendemos, achar que escutamos só porque ouvimos. Temos a capacidade de deformar a orelha para escutar apenas o que nos cai bem.

À frente das grades, as crianças correm soltas, em páginas sem pauta. São livres para sentir o que sentem, para dizer o que querem e para ouvir mesmo o que não querem, e por isso são escutadores mais argutos. Sem precisar do queixo caído, do cabelo arrepiado, da orelha em pé, se deixam surpreender e aceitam se impressionar sem muros de proteção. Escutam o que não vemos, o que não dizemos, o que tentamos esconder atrás das grades ou debaixo do tapete. Escutam nossos medos, nossas inverdades, nossas tentativas de fuga. Escutam com irreverência no lugar da pretensão de entender.

Então, escuta só: da próxima vez que os filhos vierem com uma história, não tente entender, não tente explicar. Espie de fora o que é que sentem e não dizem, o que queriam dizer mas não podem, onde amarram a voz que não sai.

E se sentiram todo ouvidos.​

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