A fina arte do Des-envolvimento. Reflexões sobre o espetáculo “Lá dentro tem coisa”

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Talita Pryngler

Fomos assistir o musical infantojuvenil: “Lá dentro tem coisa” no teatro Folha em São Paulo inspirado na obra “Partimpim” da cantora Adriana Calcanhoto.

Chegamos em cima da hora e sentamos quando a peça já havia começado. Um dos primeiros diálogos da menina Isabel com seu reflexo (uma espécie de alter ego) dizia algo como “Tem coisas que nossos pais podem nos ajudar a escolher, mas tem escolhas que temos que fazer a gente com a gente mesmo, aqui dentro.”

PLOFT! Minha filha de sete anos que tem vivido intensamente este processo de crescimento, com as dores e delicias que ele implica, observava esse diálogo estonteada quase sem piscar, eu e meu marido nos olhávamos, eu sentia meu olho marejar de emoção e orgulho, dela e da gente mesmo.

Ter e criar filhos é um processo imenso, que exige movimento e elaboração, já que cada fase muitas vezes parece mais difícil e complexa que a anterior. Trata-se de uma grande aposta, sem garantias, onde só é possível dar conta dos desafios vivendo-os.

Pais e filhos se criam e recriam a cada transição, sendo necessário ser capaz de algo que ainda não se sabe, apenas se imagina. Como bem disse a psicanalista Vera Iaconelli “A cada transição os pais trocam de casca para tentar acompanhar as novas capacidades e demandas do filho”.

O bebê imaginário na barriga dá lugar a um bebê real na família, que por sua vez vira uma criança pequena, depois uma criança grande, que almeja a independência de um adolescente e assim por diante. Esse processo implica que pais e filhos possam ir se separando, se des-envolvendo, dando espaço e confiança para que seus filhos se arrisquem e consigam construir seus recursos, sua própria maneira de ser no mundo. As perdas e renuncias, como o desmame, a retirada da chupeta e berço, a entrada na escola, a chegada do irmão e tantas outras no caminho, quando incentivadas e apoiadas pelos pais (entendendo a fase de cada criança), são a única via possível para a construção da sua autonomia.

Cabe aos adultos a sustentação da aposta em um sujeito que esta por vir, ou quando maior, o respeito e a compreensão à sua maneira, às suas escolhas e aos seus desejos.

Olhando de fora ou lendo em livros, tudo isso parece claro e racionalmente compreensível! Mas no dia a dia, quem está implicado, apostando, sentindo no corpo o aperto da angustia e o medo do desconhecido compreende o trabalho psíquico que essas operações exigem de ambos, pais e filhos.

É um diálogo constante entre medo e coragem.

No musical, com texto e personagens riquissimamente elaborados, banda ao vivo, cenário abstrato e moderno, quase onírico, Isabel e seus pais vivem o peso, o medo e a liberdade que surge ao deixar a menina de nove anos sair sozinha e escolher seu caminho.

Mas para mim e minhas filhas, os personagens que encarnam o medo e a coragem (incrivelmente representados!) e a estratégia que a coragem propõe pra lidar com o medo, se tornaram uma ferramenta lúdica sensacional.

De resto não vou contar mais! Vale muito a pena ir, a qualidade artística é excelente!

por Talita Pryngler em colunas, experiências.

Talita Pryngler é psicóloga (PUC-SP), psicanalista (Sedes Sapientiae) com especialização em educação de 0 a 3 anos (ISE - Vera Cruz) em desenvolvimento motor (Núcleo do Movimento - André Trindade) e Intervenção preciosíssima de bebês e seus pais (Instituto Langage). Idealizou e coordena o Espaço Bebê da Hebraica, é consultora na área desenvolvendo projetos para primeira infância e atende em consultório particular crianças, adolescentes e adultos. Atualmente integra o corpo de professores do instituto Gerar de psicologia perinatal. É mãe de duas meninas e adora o universo da infância.