A língua universal das crianças e dos elefantes

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Vivian Wrona Vainzof

Mac é africano de Malwe, da pele de ônix e o sorriso que amacia qualquer coisa que ele diz. Há 20 anos ele cuida de elefantes resgatados por maus tratos, até que possam voltar para a natureza. Sally, Shanti, Tatto, Tandhi e outros aguardam sua chance de voltar para a selva. O parque onde vivem é aberto ao público, para visitação. Os turistas passeiam e alimentam essas criaturas gigantescas, como se fossem bichos de estimação. E Mac acompanha tudo com seu sorriso largo e o papo solto, explica que os animais são selvagens mas aprenderam a reconhecer os guias pela roupa e a voz. Pelo jeito como ele pega na mão das crianças, abraça e caminham juntos, rindo feito velhos amigos, é fácil imaginar que os elefantes estão em boas mãos. Não falam a mesma língua, mas se comunicam com tanta naturalidade.

Bongi e Hemmet são outros dois morenos que não abrem mão da simpatia. Falam com o sotaque carregado de uma das dezenas de línguas oficiais da África do Sul. Ela é desinibida, canta, dança e ri. Ele é de poucas palavras mas seu afeto aparece numa brincadeira, num segredo, no tempero da comida servida de surpresa. Não seria de se estranhar que eu sinta saudades deles depois de uma curtíssima convivência. Por que algumas pessoas passam por nós leves como vento e mesmo assim, deixam marcas mais fundas na gente?

Curioso viajar e poder ver como pessoas são pessoas ao redor do mundo inteiro, nos destinos mais distantes, sempre em busca de cuidado, de aceitação, de respeito.

Olhando ao redor, penso neles e em quantas vezes nossas palavras são lixa para quem as engole, ou o tom de voz, espora no peito de que escuta… Por que para alguns é tão fácil ser gentil? Será que um sorriso amável, fácil e colorido como pipoca doce, é mais custoso do que um olhar gelado? Seria essa uma escolha de cada dia?

Fazemos milhares de escolhas ao longo do vida. A roupa, a comida, o caminho, a companhia, a música, as prioridades, as parcerias, o investimento da nossa energia. Eu acredito que nós escolhemos para onde olhamos e, mais que isso, escolhemos também o que vemos. E o que estamos podendo ver?

Se puder escolher, prefiro enxergar o que for mais belo e o que for mais genuíno e o que for mais recíproco. Escolho olhar para o que for mais transparente, não para ver além ou através, não, porque não pretendo ver mais longe do que posso alcançar. Mas porque o transparente aceita todas as escolhas, sem sobreposição. Fala a língua universal da empatia, que aproxima pessoas, que acolhe as crianças, que até mesmo os elefantes conseguem entender.