A primavera dos filhos

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Vivian Wrona Vainzof

Seu apelido era ratinha, de miúda que era. Demorou para crescer.

Já mocinha, das pernas compridas, ainda queria ser menina. Adiou o primeiro soutien, enquanto as amigas só falavam disso. E ao contrário da chuva, quando chega no sertão, não havia sinal de primavera para aquela menina tão pequenina. Mais que rata, ela era uma gatinha que se enroscava nos colos que estivessem à disposição.

Mesmo depois, quando os gatos começaram a miar no telhado, e quando o luar era todo de prata nas noites escuras, ela não pensou em suspirar na janela, nem lembrou de sonhar acordada porque ainda era muito criança para isso.

Demorou muito para crescer.

Ainda estudava e ria, brincava e se escondia da ideia de perder o lugar de boa menina. E ela foi perdendo também as coisas que vem antes das lindezas das árvores em flor.

Então a infância foi se esticando e a menina foi fechando os olhos para tudo o que não era dela e não era para ela, segundo ela mesma. E foi assim que ela acabou crescendo rápido demais. Para não tropeçar e não cair, foi desviando, foi esquivando, foi se furtando da consciência de que crescer era correr riscos, era experimentar, era errar e era mudar também.

“É preciso encarar uma ou duas lagartas se quisermos ver as borboletas”, dizia Ruth Rocha em A primavera da Lagarta, na sua coleção Mil Pássaros.

Uma lagarta precisa do seu tempo no casulo para ganhar asas e cor. São dias sombrios. Quem olha de fora não consegue nem imaginar o tamanho da transformação que acontece ali. Os fios apertam que quase estrangulam, desfiguram a imagem de qualquer bicho conhecido, até mesmo para a própria lagarta. Nem ela se reconhece, espremida e desamparada no abrigo que criou sozinha com fios de seda que ela não pode rasgar.

Tudo no seu tempo, cada coisa em seu lugar. A primavera é cheia de borboletas se cuidamos bem dos casulos.

Na próxima semana começa a Roda de Encontros Matutai Adolescência. Vamos refletir juntos sobre as profundas transformações que passam os filhos dentro dos casulos, tentando encontrar a luz.
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