A propósito do tempo

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Vivian Wrona Vainzof

Meu pai filmava tudo. Antes das filhas ele já usava uma câmera super 8 para registrar coisas da vida. Depois, teve uma filmadora menor, que ele achava portátil. Hoje seria um despropósito. Não sei onde foi parar a máquina supermoderna, que meus filhos, se a vissem, provavelmente achariam que é relíquia.

Esses dias, tive vontade de ver essas filmagens, visitar as crianças de um tempo longínquo, apresentá-las aos meus filhos. Desde que foi avô, meu sogro me alegra com essa imagem das crianças brincando juntas, os meus e os dele. Acho que seriam bons amigos.

Faço muita foto, sempre fiz. Evito os filmes porque pesam demais na memória… mas eles são as melhores máquinas do tempo.

Aconteceu que, recentemente, viajei até a infância dos meus irmãos. Não éramos uma família, ainda, quando eles foram crianças. Esse laço veio como presente nas porventuras da vida. E me surpreendi em vê-los ali, tão infantis, criançando como eu não tinha imaginado. Às vezes, imagino desconhecidos quando bebês. Alguém na fila do banco, na mesa do restaurante, na calçada, diminuto, no colo da mãe, usando chupeta. Acho divertido pensar naquele engravatado, mal humorado, ou numa de salto fino e batom vermelho, em tamanho reduzido, fazendo gugu-dada.

E quando vi, estranhei. Não é que não os reconheci, eu pude vê-los lá dentro deles. Mas eram outros eles. Eram eles muito límpidos e transparentes, tão genuínos, tão espontâneos, sem os efeitos do tempo, do sol e da chuva, dos anos, dos medos, das misturas, dos desencontros. Eram só eles, na forma pura. Não tinham traumas nem arestas, mas olhos sinceros e graça nos gestos.

De volta para casa, nesses anos de agora, me ponho a encarar o futuro e pensar em meus filhos daqui vinte anos. O que vão levar de hoje, que veremos no brilho dos olhos? O que vai restar na pele, da alma de criança? O que poderei ver a olho nu?

Um frio na espinha de pensar que nada se sabe sobre o que serão. Não há garantias. O que temos hoje, o que fazemos por eles, o que pensamos que são, tudo um instante, um milésimo de segundo dos filmes que pesam na memória. Meu pai, se os visse, provavelmente acharia que são relíquias.