Anime Friends – imperdível para curiosos pelas sub-culturas orientais

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Deborah Goldemberg

​Como acontece com as mães, um belo dia seus filhos chegam em casa fãs de alguma banda nova ou personagem do qual você nunca ouviu falar. Daí em diante, você começa a ouvir falar a respeito disso no café da manhã, almoço, jantar, até que chega o dia em que você é intimado a leva-los para o show desse novo “integrante” da família. A última lá em casa foi uma tal de Hastune Miku. Ela cumpriu o ritual acima, mas não é exatamente uma banda ou um personagem: é extamente um híbrido disso – uma popstar virtual, parte do universo Anime, o nome do evento desconhecido no qual eu passaria o meu Sábado. Algo no Anhembi, aparentemente enorme, de quarto dias, com um preço salgado, mas vamos que vamos!

Diante do meu armário, a melhor aposta que pude em termos de look para um show do tal Anime foi uma camiseta rasgada da banda de heavy metal Megadeth… Coloquei até uma saia de vinil e fiz até uma mecha roxa como a da minha filha antes de seguimos animadas para o Anima (como poderia ser diferente?). Sei que chegando lá, imediatamente, me dei conta de que trata-se um universo totalmente à parte e, definitivamente, eu com a minha camiseta de Megadeth deixaria todo mundo muito confuso. Isso porque, aprendi, o universo Anime é dedicado aos personagens das animações japonesas ou, como me disse uma moça muito prestativa, a tudo ligado à cultura japonesa. O grande barato do evento é justamente você ir vestido como o seu personagem favorito, o que é chamado de cosplay.

Desde que colocamos o pé no Anhembi, fomos nos deparando com Pokemons, Narutos e todo tipo de heróis e guerreiras, até personagens meio assustadores com cortes expostos e machados em riste. Beleza. Apesar de ser “cultura japonesa” e haver pessoas de camisetas com imagens de sushi ou tai chi chuan (que é Chinês, by the way), haviam também Meridas, Malévolas e até homens barbados vestidos de Ariel. Ou seja, o universo da Disney está integrado ao Anima e o que vale, como eu ouvi de uma moça de 18 anos chamada Kel (atendente do Café Maids, vestida de empregada da era vitoriana com uma coleira de ferro presa ao cinto), é que no mundo Anima você pode ser quem você sempre sonhou ser. Curti essa vibe, apesar de me assustar com os sonhos alheios de usar lentes de contatos brancas e não piscar jamais para manter os olhos arregalados - como os heróis de mangás japoneses!

O show de Hatsuko Miku, que desde o início me pareceu suspeito porque, afinal, uma popstar digital pode até ser legal na internet, mas na hora H do show… qual seria o diferencial? Sei que havia o plano de fazerem uma projeção holográfia da cantora, mas isso não rolou, o que decepcionou a todos e, então, voltamos para os corredores do Anima, onde fomos descobrindo coisas cada vez mais divertidas. Por exemplo: os grandes cantores de animações japonesas são coreanos, então há um culto paralelo ao K-POP, que é a Korean Pop Music. Num palco improvisado, centenas de adolescentes brasileiros cantam em coreano e dançam as coreografias que aprendem na internet! Tudo bem que a maioria soava como rap americano ou funk carioca, mas achei o movimento de uma diversidade positiva para os jovens.

Assisti aos dançarinos requebrando ao lado da mãe de uma menina de 4 anos. Apesar do ingresso ser gratuito para crianças até 12 anos, havia poucas nessa faixa etária (como a minha filha, que desenvolveu o interesse ao acaso). Essa mãe me explicou que ela mesmo vinha para as baladas Anima quando tinha 18 anos (já fazem ao menos vinte anos) e continua adorando. Descobri que desde 1994 há transmissão de Animes (oficialmente, animação de mangás) em TV aberta no Brasil (começando com a TV Manchete)! O Cavaleiro do Zodíaco, aparentemente, foi o que aculturou essa primeira geração de Anime Friends, como é chamado o evento. Hoje, o mercado brasileiro está repleto de opções em TV aberta, fechada e, claro, na internet. O foco do evento, portanto, são os adolescentes e os adultos que foram adolescentes Anime.

Depois que a novidade decanta e visitamos os stands mais interessantes, como o dedicado ao Harry Potter e o da editora Panini (que publica quase toda a literatura do gênero no Brasil), a diversão de todos é circular e tirar fotos. Apesar de eu achar meio exagerado o foco no visual dessa turma, tenho que confessar que não resisti tirar fotos da minha filha com um Darth Vedder incrível e uma Malévola linda. Só fiquei triste de não ter conseguido tirar com uma Merida perfeita, de cabelos naturais ruivos e revoltos. De toda forma, mesmo para os pais menos “Animados”, o evento tem atrativos. Numa das barraquinhas de alimentação do evento, comi um bolinho de polvo japonês maravilhoso, chamado Takoyaki, que me fez até esquecer até o quão ridícula eu estava com a minha camiseta do Megadeth. O prato é uma iguaria no Japão, que sai quentinha e vem com lascas finíssimas de peixe frito encima, que ficam se mexendo no prato! Imperdível!

por Deborah Goldemberg em programação, São Paulo.

Deborah Goldemberg é antropóloga e escritora, autora de Valentia (Ed. Grua, 2012), romance vencedor do PROAC do Governo de SP/2011 e finalista dos prêmios Jabuti e Machado de Assis (Biblioteca Nacional) em 2013. Seu primeiro livro para o público juvenil, Antônio Descobre Veredas (Ed. Biruta), saiu em 2014. Seus livros de estreia foram as novelas Ressurgência Icamiaba (Selo Demônio Negro, 2009) e O Fervo da Terra (Carlini & Caniato, 2009). É curadora na área de literatura indígena, coordena oficinas literárias em espaços culturais como Casa Mário de Andrade, Casa das Rosas, SESC Pinheiros e Livraria Cultura. É fundadora do projeto LITERARÍA de curadoria literária.