Anne Frank – precisamos ler mais sobre ela, não menos

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Luciana Pinsky

​Anne Frank ficou mais de dois anos escondida no porão de uma casa em Amsterdam. Judia, ela teria poucas chances de escapar se os nazistas chegassem a ela. Chegaram. Ela foi mandada para um campo de concentração. Morreu em fevereiro de 1945 no campo Bergen-Belsen, pouco antes do fim da guerra na Europa. A adolescente holandesa foi uma das 6 milhões de vítimas do Holocausto nazista. A história dela só se tornou muito conhecida porque durante o tempo de confinamento ela manteve um diário. O único sobrevivente da família, seu pai, o encontrou pouco tempo depois da guerra e o publicou. Com o tempo virou uma febre, foi traduzido para dezenas de línguas. É uma forma delicada e ao mesmo contundente de mostrar os horrores nazistas para crianças e adolescentes. Por isso, muitas escolas adotam o livro. Além do próprio diário, já resenhado aqui, há também uma HQ aprovada pela Casa Anne Frank.

Pois bem, essa história em quadrinhos ganhou o noticiário há pouco tempo porque familiares de alunos de um colégio particular da cidade de São Paulo procuraram a direção da escola para reclamar do conteúdo do livro, que foi adotado no 7ª ano. Eles não gostaram dos trechos em que a menina fala de sua sexualidade, traz questionamentos sexuais e mostra curiosidade em relação ao assunto. Estamos falando de um clássico, que conta as agruras de uma menina para a qual torcemos, mas que sabemos que não sairá viva do horror nazista. Mas não há, aparentemente, choque com a perseguição e o fato de uma família estar confinada e não poder exercer minimamente sua liberdade. O desconforto do livro é que uma menina de 13 anos escreva livremente – em seu diário íntimo, lembremos – de sua sexualidade. Não pensemos, porém, que estes pais são os únicos incomodados. Há cerca de três anos outra reportagem falava de pais de um colégio de Vitória (ES) que também se incomodaram com a mesma HQ.

Mas por que será que a sexualidade incomoda tanto? E, antes, será que temas incômodos aos pais não devem ser abordados nas escolas? Será que pais de pré-adolescentes de 11 e 12 anos acham que seus filhos se escandalizam com palavras como ‘vagina’? Segundo uma reportagem da Folha de S.Paulo (Cotidiano, dia 09 de junho) o colégio facultou às famílias escolher outra versão do tal diário . Se isso de fato aconteceu, é uma pena. Estou supondo aqui que o colégio, ao escolher essa versão da obra, estava fazendo um bom trabalho, apresentando várias facetas de uma adolescente confinada e conduzindo bem a leitura da obra, com toda a complexidade exigida dos temas envolvidos. Se assim foi, deveria ter mantido sua posição e a justificado.

Se o desfecho específico é incerto, a discussão se tornou pública e é relevante. Nem sempre os livros escolhidos pela escola – e as discussões a partir deles – vão agradar os familiares. Isso não só é esperado como até pode ser positivo – assim, crianças e adolescentes podem ter outras visões e outros olhares. Questionar pode ser positivo, mas o melhor é tentar entender as escolhas e a condução da escola. Ou seja, conversar primeiro e não sair criticando.

Se seu filho ainda não conhece a história de Anne Frank, sugiro que junto com o diário (o completo ou a HQ) leia uma obra que contextualize a sua época de uma forma muito delicada e que já foi resenhada aqui também (https://bora.ai/blog/livro-tudo-sobre-anne-frank).