As oportunidades que as férias proporcionam

avatar de Talita Pryngler
Talita Pryngler

É julho, férias escolares e com elas a necessidade de dar conta das crianças fora da rotina. Alguns pais conseguem escapar uns dias, outros permanecem trabalhando. As férias de inverno são uma pausa entre os dois semestres do ano, e mais que isto, são uma oportunidade para vivenciarmos lugares, passeios, viagens e momentos em família com um certo charme, luminosidade e aconchego que só essa estação do ano nos proporciona. Já ouviu aquela fala “criança parece que não sente frio!”? É verdade ,se está brincando, correndo, inventando circuitos na sala com as almofadas ou criando algo importante com o corpo parece que não sente mesmo frio, porque o movimento e a ação, são motores de um corpo vivo e quente, o brincar livremente aquece a alma.

Esse é então o ponto importante que desejo apontar sobre as férias, a oportunidade de vivenciarmos momentos com mais liberdade, criação e tempo. Experienciar uma outra qualidade de tempo deveria ser sinônimo da palavra “férias”. É esse de fato o grande tesouro que perdemos, adultos e crianças, com a vida moderna e é vital que encontremos de forma instituída pausas, brechas, espaços vazios e ócio.

Posso aqui falar das pesquisas de Harvard, mas na verdade todos nós sabemos disso, o quanto é difícil muitas vezes pararmos, deixarmos as crianças livres, nos desprendermos do tempo e da produtividade que lutamos tanto para manter no dia-a-dia. Aprender virou sinônimo de atividades, produtividade virou sinônimo de excesso de trabalho e estresse. Invertemos as lógicas, os mecanismos que regem a aprendizagem e a produtividade e viramos escravos do tempo.

D. Winnicott (pediatra e psicanalista inglês) nos trouxe o conceito sobre o Espaço Potencial que seria mais ou menos como uma terceira parte da vida de um ser humano, uma área de experimentação, na qual contribuem tanto a realidade interna quanto a vida externa. Trata-se de uma área que não é disputada, porque nenhuma reivindicação é feita em seu nome, exceto que ela exista como lugar de repouso para o individuo empenhado na perpétua tarefa humana de manter as realidades interna e externa separadas, ainda que inter-relacionadas. Assim temos a delimitação do espaço em que se situa e se desenrola o brincar e que na vida adulta é inerente à arte e à criação. Esse “espaço de potencia” necessário para vivenciarmos, criarmos e elaborarmos os aspectos da vida, precisa de “espaço psíquico” para existir.

As férias trazem essa possibilidade; a percepção que o excesso não é sinônimo de satisfação, aprendizagem e produtividade. Na verdade muitas vezes ele encobre questões relacionadas a educação, a presença e a ilusão de controle do futuro. As pausas são uma oportunidade para a reconexão, descobertas e insights. São um ótimo exercício de presença e de contemplação da vida, seja em casa, na casa dos avós, com amigos, em programas culturais, viagens ou em silencio.

por Talita Pryngler em colunas, experiências.

Talita Pryngler é psicóloga (PUC-SP), psicanalista (Sedes Sapientiae) com especialização em educação de 0 a 3 anos (ISE - Vera Cruz) em desenvolvimento motor (Núcleo do Movimento - André Trindade) e Intervenção preciosíssima de bebês e seus pais (Instituto Langage). Idealizou e coordena o Espaço Bebê da Hebraica, é consultora na área desenvolvendo projetos para primeira infância e atende em consultório particular crianças, adolescentes e adultos. Atualmente integra o corpo de professores do instituto Gerar de psicologia perinatal. É mãe de duas meninas e adora o universo da infância.