Canções populares e a cultura da infância

avatar de Talita Pryngler
Talita Pryngler

Domingo, Dia das Mães e antes do tradicional almoço com a família, lá fomos nós ao Teatro Sérgio Cardoso (em São Paulo) assistir ao show do Mundo Aflora, composto pelos músicos brincantes Angelo Mundy e Flora Poppovic. Entrando no teatro me dei conta quando vi aquele cenário lindíssimo e a luz do palco, que assistir a esse show naquele dia era de fato um programa que fazia muito sentido para mim, pois era dia de comemorações. Sou profunda admiradora da cultura da infância e a maternidade me incentiva a proporcionar esses momentos para as minhas filhas e para mim também. Sinto muita alegria ao presenciar tamanha qualidade musical, cênica e estética ilustrando um repertório carregado de afeto, idiomas, brincadeiras e cultura. “Meia volta e meia” é um espetáculo que celebra a cultura trazendo o repertório popular brasileiro, de outros países e de outras infâncias.

Assistir essa apresentação me trouxe algumas reflexões importantes sobre a cultura da infância. Uma delas é por que ainda cantamos canções e brincadeiras com conteúdos às vezes estranhos que falam de medos (Boi da cara preta) e de ações politicamente incorretas (Atirei o pau no gato)?

As canções e brincadeiras populares tem uma função organizadora das vivências pulsionais (exigências de satisfação) e também sociais das crianças. Elas falam de manifestações, desejos e narrativas individuais, mas ao mesmo tempo comuns aos indivíduos sociais, que são estruturantes da construção psíquica e ética dos pequenos. São saberes difundidos, passados oralmente de geração em geração que exprimem medos, crenças, mitos e tradições de cada região e de cada povo. Desta forma, estas manifestações coletivas expressam nossa capacidade de simbolização, trazendo recursos para que possamos elaborar e compreender coletivamente aspectos comuns da vida infantil. Quando compartilhamos os saberes populares através da cultura oral, das brincadeiras e das músicas, enredamos essa criança numa teia carregada de afetos, histórias e memórias. Isso só acontece se essa transmissão for recheada de melodias, ritmos, corpos e trocas. São ensinamentos que necessariamente precisam de um outro encarnado para acontecer, esta função é insubstituível, jamais poderá ser trocada por assistir passivamente um DVD ou algum programa numa tela.

Mundo Aflora é formado por músicos brincantes que traduzem um repertório riquíssimo com o corpo, a voz e seus inusitados instrumentos. Celebram os encontros com múltiplas linguagens artísticas alçando voos e mergulhos nas nossas próprias coletâneas da infância, ao mesmo tempo, que inauguram e reinauguram novas formas de olhar, de cantar e principalmente de brincar a vida.

Vida longa a essa dupla tão talentosa e querida!

por Talita Pryngler em colunas, experiências.

Talita Pryngler é psicóloga (PUC-SP), psicanalista (Sedes Sapientiae) com especialização em educação de 0 a 3 anos (ISE - Vera Cruz) em desenvolvimento motor (Núcleo do Movimento - André Trindade) e Intervenção preciosíssima de bebês e seus pais (Instituto Langage). Idealizou e coordena o Espaço Bebê da Hebraica, é consultora na área desenvolvendo projetos para primeira infância e atende em consultório particular crianças, adolescentes e adultos. Atualmente integra o corpo de professores do instituto Gerar de psicologia perinatal. É mãe de duas meninas e adora o universo da infância.