Cantinho do desabafo

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Renata Portenoy

Quando a quarentena começou, uma das coisas que mais me preocupou foi: “Como vou fazer com a minha terapia semanal?”

Talvez, mais do que em muitos momentos, eu precisasse da minha psicóloga para me ajudar a manter o equilíbrio emocional, já que estaria fechada em casa com o meu marido e meus dois filhos, além da companhia da cozinha, das roupas, do meu trabalho, da vassoura, do home school entre tantos outros afazeres e sem saber até quando.

Então, assim como muitas outras questões, a minha terapia se resolveu com a ajuda da tecnologia. Comecei a fazer sessões virtuais e confesso que no começo estava com o pé atrás. Mas acabei gostando e me acostumando.

Mas, e as crianças? Eles não estão tendo o seu espaço de troca na escola, com os amigos, com os professores, como costumavam ter. Não estão tendo espaços para correr, pular, nadar e colocar a energia e as angústias para fora. Eles não fazem terapia e a quarentena não é o melhor momento para começar um processo terapêutico.

A situação é toda nova e, se para nós é difícil entender, para eles mais ainda. Em casa nós conversamos abertamente sobre a situação mundial, do nosso país, da nossa cidade e da nossa casa, é claro. Estamos sempre abertos para escutar e pensar juntos. Mas sei que isso não deve ser suficiente.

Eu precisava criar uma maneira dos meninos colocarem para fora aquilo que não estão conseguindo falar ou que não estão querendo falar com nós, os pais.

Foi então que tive uma luz….

Criei o CANTINHO DO DESABAFO.

Pendurei no corredor um papel em branco, estreito e comprido, como se fosse um pergaminho que vai se desenrolando. Ao lado, pendurei uma caixa de canetinhas coloridas - afinal, um pouco de cor sempre torna as coisas mais bonitas, não?

Quem quisesse, algum dos dois meninos, mas também eu e meu marido, poderia escrever, desenhar, rabiscar naquele canto.

A ideia foi muito bem recebida. Há mais de um mês temos um registro de sentimentos e acontecimentos importantes e relevantes.

Lá, registrado para todo o sempre, entre muitas outras coisas, está a tristeza do meu caçula de fazer aniversário na quarentena e não poder ir com os seus amigos no Escape 60, conforme tínhamos combinado.

Está também o questionamento do mais velho sobre quando tudo isso vai passar.

Eu escrevi que o sol e o vento no corpo enquanto caminho ou ando de bicicleta e a minha aula de ioga estão me fazendo muita falta. Coisas mais complexas ainda deixo para a sessão virtual da terapia.

Acho que, infelizmente, ainda temos bastante tempo pela frente até podermos sair livres e abraçarmos nossos avós, pais, irmãos e amigos que estão longe e fazer tanta coisa que queremos.

Então, você ainda está a tempo de criar o cantinho do desabafo na tua casa.

É útil e mais barato que a psicóloga!

Boa quarentena. Fique em casa. Aproveite o tempo de uma maneira diferente. Essa é uma oportunidade única.

por Renata Portenoy em colunas, Cidadania e Sustentabilidade.

Brasileira. Mãe de dois garotos uruguaios, Shir e Guily (10 e 7 anos). Esposa de um argentino. Ou seja, bagunça latino-americana na própria casa. Arquiteta e Urbanista, mestre em Gestão e Educação Ambiental, valoriza muito a qualidade de vida na cidade e o uso consciente dos recursos naturais. Curte andar a pé e de bike. Pratica ioga e gosta de nadar. Cultiva hortas orgânicas para si e para os outros. É apaixonada por arte, cinema, livros e ama viajar sozinha ou com a família.