Como nossos filhos se tornaram as crianças-do-álbum-da-Copa?

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Deborah Goldemberg

O álbum da Copa do Mundo entrou na nossa casa sem pedir licença. Para muitos, ele veio no jornal de domingo, gratuitamente, como quem não quer nada. Quando nos demos conta, ele já era o protagonista dos dias dos nossos filhos. Além das crianças pedirem para comprar figurinhas regularmente, fato que alguns pais gerenciam melhor do que outros (uns comprando 80 pacotes de uma vez e outros a contra-gotas), assim que um pequeno bolinho de “repetidas” se formou, elas começaram a trocá-las em todos os lugares, a jogar “bafo” para obter figurinhas raras na sorte (ou na habilidade de revirar a figurinha sob o efeito de uma leve batidinha da mão em concha) e, eventualmente, a negociar ou, até, roubar figurinhas…

Eu sei que muitos pais resolveram fazer de um limão uma limonada, como se diz, e focaram no lado bom da coisa. Sim, o álbum da Copa ajudou crianças a se familiarizarem com números até 600, a aprenderem o nome de países que jamais nem teriam ouvido falar, a visualizar imagens da Rússia, a exercitar a memória de forma surpreendente (saber exatamente qual figurinha lhes falta na página 56). Sim, esses foram os efeitos colaterais positivos que levaram aos pais a baixarem a resistência diante da condenação de terem que investir cerca de R$560 para seus filhos conseguirem os estimados 280 pacotinhos que, em média, garantem o preenchimento das 682 figurinhas do álbum (sem contar as trocas potenciais). Isso para os que tem apenas um filho ou os vários filhos que toparam compartilhar um único álbum.

Só que, não é possível deixar de notar com certa perplexidade a velocidade com a qual espaços públicos e privados se tornaram “pontos de troca” de figurinhas da Copa, como vieram a ser cunhados. Além de que é praticamente impossível ver uma criança sem o álbum da Copa debaixo do braço e ela/ele não se aproximarem para ver se seus filhos querem trocar. Os clubes, os shoppings e, pasmem, até algumas escolas, oficializaram “pontos de troca” para as crianças negociarem suas figurinhas repetidas. Ou seja, paira em todos os lugares a energia da negociação desenfreada de figurinhas rumo ao objetivo de completar o álbum da Copa. Todos querem ser o primeiro a completar ou, se sabem de alguém que já completou (esses colegas se tornam os lendários), ao menos, ser o quinto ou sexto da escola ou da turma, cada qual se acomodando no seu ranking. Essa estrutura narrativa ecoa para os adultos? Passar os dias negociando algo para ser o primeiro de algo? Pois é. Vai vendo.

A febre instalada, comecei a ouvir relatos de crianças que se tornaram verdadeiros profissionais em negociação de figurinhas, não raramente sob a tutela dos pais. Estabelecem padrões de troca, porque não basta trocar uma “repetida” por uma “repetida”. Foi desenvolvida uma estratificação das figurinhas, algumas das quais são “raras”, outras pertencem à primeira página (as “00”), outras são dos grandes craques e, ainda, há as “brilhantes”. Em princípio, só se troca figurinhas do mesmo tipo, mas quando o colega está desesperado pela figurinha do Neymar ou só lhe falta aquela figurinha do goleiro japonês, então, é vale tudo - de uma única figurinha em troca de um bolo de 50 ou um tanto de pacotinhos fechados de figurinhas. Algumas crianças denominam essas trocas de “trocas injustas”, mas se rendem, porque precisam daquela figurinha.

As situações de desespero passam a surgir quando as crianças vão ficando mais perto de conseguirem completar as páginas dos times ou, eventualmente, o próprio álbum. Ouço relatos de crianças que arriscam tudo no “bafo” para conseguirem a figurinha que precisam e quando o revés predomina, elas perdem o controle, choram e pedem para ir para casa, não conseguindo lidar com a frustração. Ouvi relatos da incidência de “roubo de figurinhas” numa escola de elite paulistana. Para quem ainda pensa que só se rouba para comer, saiba que o desespero por figurinhas se equipara. Pior o relato acerca de uma menina que tem dois bolos de repetidas (o das repetidas e as duplas repetidas) que não troca com os amigos porque não quer. Ainda, ela esconde suas repetidas mais almejadas e não deixa seus colegas verem-nas por mais de 2 segundos. Eu nem sabia que o sadismo podia existir entre crianças.

Como na sociedade adulta, graças à Deus, há os “loucos”! Ouvi relato de um menino que chega no recreio e, com um chafariz, joga suas figurinhas repetidas pelos ares para quem quiser pegar, causando o maior alvoroço entre os colegas. Porque? “Porque sim, porque ele é super-bonzinho”, as crianças me relatam. “Uma outra menina deu a figurinha dela do Cristino Rolando sem nada em troca.” Porque? “Por nada, porque ele queria muito.” Outra florzinha ganha suas figurinhas, mais jamais cola no álbum. “Para que, então, comprar figurinhas?” Apenas para trocar com os amigos, para fazer parte da brincadeira, ela explica. Quando esses relatos são feitos, as pessoas riem e seus olhos brilham. Nervosas com suas próprias atitudes? Aliviadas, talvez? O que seria do mundo sem os loucos, os generosos e os poetas?

Enquanto isso, as negociações fervem pelos corredores e salas de aula e meios de transporte, alimentadas por – pasmem – os adultos. Em algumas famílias, o próprio pai ou a mãe tem o seu próprio álbum separado dos filhos. Pais e filhos negociam durante horas as suas figurinhas. Além disso, perueiros, professores e até os tios das cantinas entraram na onda! Negociam visceralmente com crianças que têm pelo menos vinte anos menos do que eles, tudo para atingir a meta de completar o álbum. Até lanche de graça já entrou na roda! Nos “pontos de troca”, não é incomum ver os pais negociando pelos filhos com outras crianças, para que eles consigam melhores negociações, enquanto seus filhos ficam parados ao lado – aprendendo a negociar. Alguns pais valorizam esse aprendizado, que certamente instrumentalizará seus filhos para a vida cruel que há lá fora. Seria mais uma redenção do álbum?

Sei que o CEO da Panini (empresa responsável pelo álbum) deve estar muito feliz que nossas crianças se tornaram ávidas por atingirem a meta coletiva que ele traçou com muita habilidade. Todos querem completar o álbum a qualquer custo. Então, pergunto às crianças, “E quando se completa o álbum, o que acontece?” E todas elas me dizem que perde a graça, porque não precisa mais conseguir nenhuma figurinha e, então, os campeões ficam morrendo de tédio fora dos sistemas de trocas. Uma menina relata que o seu colega conseguiu completar o álbum na primeira semana, porque a sua avó lhe deu 200 saquinhos de figurinhas. Ela agora ronda o recreio solitário, com seu álbum debaixo do braço. Para sanar esse problema, adivinha? Algumas crianças estão comprando um segundo álbum, para não ficar de fora. Depois do segundo, o que será que elas vão fazer? Comprar um terceiro?

O que assusta é o quão facilmente essa brincadeira se instalou entre as crianças, com um formato que é uma réplica exata da como a nossa sociedade funciona. Enquanto as crianças trocam figurinhas na escola, os adultos passam seus dias negociando tempo por dinheiro (nem todos conseguindo as almejadas “trocas justas”) no trabalho para completarem o seu próprio “álbum da Copa”, que é um pouco mais subjetivo e ajustado aos desejos específicos de cada classe social e faixa etária – seja uma casa bonita, um carro (ou dois), viagens, jóias, enfim. Me pergunto se os sonhos adultos chegaram de forma igualmente desavisada nas nossas mentes? No jornal de domingo? Quem os plantou lá? O pior de tudo nessa analogia é o quanto que, apesar da busca desenfreada e toda a ansiedade que isso gera, assim como ocorre com as crianças, não é incomum que quando as pessoas consigam completar o seu “álbum” haja sensação de deslocamento e vazio.

Realmente, temos muito a aprender com o álbum da Copa. Há algo de profundamente pedagógico para nós, pais e mães e cuidadores, percebermos que nossos filhos entraram na onda tão rapidamente porque eles passaram a se comportarem nós. Fomos nós que os ensinamos a serem as crianças-do-álbum-da-Copa, ainda que subliminarmente, ao acatarmos metas postas por outros (particularmente, CEO´s de grandes empresas), nos tornarmos obsessivos para atingirmos essa meta, inclusive dispostos a agirmos de forma agressiva e inescrupulosa. Somos nós essa sociedade de pessoas que negocia o tempo todo, saboreia pequenas vitórias com gana e sofremos com suas frustrações, sem nem saber ao certo quem nos colocou essas metas na nossa cabeça e se é realmente isso que queremos. E se você tem alguma dúvida disso, pergunte a uma criança de 4 ou 6 anos se ela sabe ao menos o que é a Copa do Mundo? Ela não sabe. Na Copa passada, ela ou não existia ou ainda dormia no seu berço, imune a tudo.

E você – sabe porque está preenchendo o seu álbum de sonhos?

Leia também: “Explore o álbum da Copa do Mundo com as crianças” por Luciana Pinsky

por Deborah Goldemberg em idéias.

Deborah Goldemberg é antropóloga e escritora, autora de Valentia (Ed. Grua, 2012), romance vencedor do PROAC do Governo de SP/2011 e finalista dos prêmios Jabuti e Machado de Assis (Biblioteca Nacional) em 2013. Seu primeiro livro para o público juvenil, Antônio Descobre Veredas (Ed. Biruta), saiu em 2014. Seus livros de estreia foram as novelas Ressurgência Icamiaba (Selo Demônio Negro, 2009) e O Fervo da Terra (Carlini & Caniato, 2009). É curadora na área de literatura indígena, coordena oficinas literárias em espaços culturais como Casa Mário de Andrade, Casa das Rosas, SESC Pinheiros e Livraria Cultura. É fundadora do projeto LITERARÍA de curadoria literária.