Copenhagen com crianças: aprendendo a encarar o lado B da vida com os dinamarqueses

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Elisa Roorda

Chegamos no nosso terceiro país: Dinamarca. Terceira vez que mudamos de casa, de vizinhos, de regras da casa, de idioma, de mapa, de meio de transporte, de forma de separar o lixo e por aí vai. Já estamos muito organizados e fluindo bem como equipe. Todos ajudam, cada um sabe suas tarefas e já temos nossos pequenos rituais. Mas apesar desses combinados é interessante ver também como mudamos completamente em cada novo lugar que chegamos. Não tem como não entrar na energia e no fluxo de cada cidade. E isso pode ser fácil ou difícil, dependendo da realidade que encontramos e como a encaramos. Algumas mudanças são maravilhosas! Outras podem ser difíceis de absorver.

Logo na primeira noite em Copenhagen o Martin me deu um baile. Acordei 50 vezes com ele berrando, então minha manhã já começou mal humorada. O Flavio teve uma crise no ciático e não conseguia se mexer muito para ajudar com as crianças, a roupa e a comida. A Nina decidiu que naquele dia não sairia para lugar algum, a Sofia resolveu testar todos os limites porque estava cheia de energia e precisava sair e o Martin estava obviamente manhoso com a noite mal dormida que também teve. Fora a tempestade que caia lá fora e que nem com nossas super capas de chuva conseguiríamos sair. Nossa manhã foi um caos, cheia de brigas e mal humores. Quando a chuva finalmente deu uma trégua a tarde e conseguimos sair, parece que toda aquela nuvem negra foi embora. Fizemos um programa super gostoso pela cidade e todos voltaram felizes e renovados pra casa.

Naquela noite fui postar algumas fotos no Instagram pra manter a família e amigos atualizados das aventuras e lá estava eu falando de todas as maravilhas quando o Flavio me lembrou do caos que tinha sido de manhã. Aquele caos tinha feito parte do dia. Como não falar dele? Então engatamos em uma conversa sobre o lado B da viagem e da vida, que muitas vezes é pouco falado, mas que é tão importante de ser vivido e, às vezes, compartilhado.

Aqui em Copenhagen eles tem um jeito interessante de lidar com a vida e a felicidade. Não à toa, são considerados felizes e bem resolvidos de uma forma geral. Depois de pesquisar, ler e conversar com pessoas fiz a seguinte interpretação de como um dinamarquês leva a vida: eles encaram a realidade de frente, sem muito alarde e com muita transparência. São otimistas, mas não aqueles otimistas bestas que fazem o jogo do contente e fingem que nada de ruim acontece. São otimistas no sentido de que sabem que a vida tem muitos tons e não existe nada só ruim ou só bom. Então eles escolhem ver o lado bom de tudo, mas com muito pé no chão, aprendendo com os problemas que aparecem.

Então acho que o segredo é reconhecer a realidade como ela é, encarar os problemas de peito aberto, aprender com eles e pronto. Deixa passar. Não vale gastar energia no que não podemos mudar ou no que já passou e não tem mais importância. Depois disso, coloca a tua energia a intenção em coisas boas que elas aparecem. E se as crianças viverem essa forma de encarar a vida desde pequenos, com certeza vai ser muito mais fácil ser feliz.

E o aprendizado não para por aí. Além de levar a vida com essa leveza, eles também tem a sabedoria de apreciar e honrar aqueles momentos simples do dia e ensinam os pequenos a encararem a vida assim também. É como se aquele encantamento pela vida, que as crianças tem, não se perdesse nunca! Eles dão um enorme valor para aqueles breves momentos que nos enchem de uma alegria e um brilho por dentro. Sabe aquele encontro com amigos queridos, aquele solzinho batendo no rosto no começo de verão, aquela brisa na cara quando pedalamos pela cidade, aquela gargalhada gostosa dos filhos, um por do sol mágico ou aquela comida gostosa que só a sua mãe sabe fazer pra você? Eles chamam este momentos de HYGGE (que se pronuncia HUGA). Pode algo mais lindo deste mundo existir uma palavra para estes momentos? Não que estes momentos não existam em outros lugares, mas eles falam mais sobre isso e tem uma palavra pra isso. É uma filosofia de vida, está no DNA deles. É tipo saudades, que só existe em português e tanto explica da gente também.

E assim seguimos aprendendo e nos inspirando com cada novo lugar que passamos e cada povo diferente que nos acolhe. Próxima aventura: Umbria, na Itália! Mas antes disso, deixo aqui as dicas dos lugares e passeios que mais gostamos em Copenhagen, nesta temporada chuvosa, mas cheia de HYGGE <3

Tivoli
Sem dúvida, este foi o programa que mais nos marcou nesta cidade. Logo na entrada do parque minhas filhas me disseram que nunca tinham ido a um parque de diversões! Só aí me dei conta desta falha na infância delas (rsrsrsrs). Mas a verdade é que nunca nenhum parque me inspirou a levá-las antes. Ninguém aqui gosta de multidões, filas, histeria, consumismo doido, e sempre acabamos escolhendo programas mais tranquilos, mais próximos da natureza e o parque acabou passando batido. Mas não podíamos ter resolvido esta falha da melhor forma! O Tivoli é encantador para todas as idades, super família, lindo, cheio de verde, um parque de verdade. E tem diversão para todas as idades!

National Museum of Denmark
O museu é lindo e o destaque é obviamente a parte dos Vikings. Foi muito impressionante ver o trabalho do Jim Lyngvild, que retratou os Vikings de forma tão real! E nossa filha mais velha, que estudou mitologia nórdica na escola no ano passado não se aguentava de emoção de encontrar as runas e todas aquelas peças e histórias sobre os Vikings. E no térreo ainda tem o Children’s Museum, com uma parte interativa dedicada inteiramente as crianças.

Nyhavn
Saindo do museu, logo ali do lado, fica Nyhavn. É o cartão postal de Copenhagen. Um canal lindo, inspirado nos canais de Amsterdam, cheio de cafés, restaurantes e onde morou o famoso escritor de contos de fadas Hans Christian Andersen. Ele que escreveu “A pequena sereia”, “A princesa e a ervilha”, “O patinho feio”, “A roupa nova do rei” e tantos outros!

Boat tour
Apesar de ser bem turístico, uma das formas mais bacanas de se conhecer e se localizar na cidade é fazendo um tour pelo canal. Tem várias companhias que fazem. Algumas com barcos maiores e outras com barcos menores e mais exclusivos.

Strøget
Saindo do Boat tour, caminhamos até a Strøget, que é o centro de Copenhagen e a maior rua de pedestres de toda Europa. Começou a chover, então entramos no Café Norden, que fica em um lugar com uma vista privilegiada e tomamos o melhor chocolate quente do mundo, como falaram as meninas! Logo depois caminhamos pelas ruas simpáticas e sem carros com todos os tipos de lojinhas. Inclusive passamos por uma loja enorme da LEGO, já que este é o país onde ele foi inventado.

Frederiksberg
Este foi o bairro onde ficamos. Além de ter muitas lojinhas, cafés e restaurantes simpáticos na Gammel Kongevej, ainda tem um parque maravilhoso que ficava ao lado de casa, o Frederiksberg Have. Ele é enorme, mas ao mesmo tempo simpático e aconchegante. Tivemos tardes deliciosas por lá.

A troca da guarda
A troca da guarda em Londres foi um dos programas que não conseguimos ir. A verdade é que a costumeira lotação de pessoas não nos atraiu muito. Então fomos ver a troca da guarda real em Copenhagen, que é menorzinha e mais simpática. As crianças adoraram as roupas, as casinhas fofas dos guardas, a música linda que eles tocam (a Nina não acreditou na flauta transversal dos guardas!) e a sincronicidade da marcha. Rolou um dia inteiro de treino de marcha pra ver se era possível fazer algo igual.

Brincadeira de menino
Logo depois da troca da guarda, andamos um pouquinho até o canal com a intenção de caminhar até a estátua da pequena sereia, que já havíamos visto no Boat tour. Mas quando chegamos lá os meninos aqui de casa se depararam com uma fragata da Marinha, um caça F-16 e outros tantos veículos gigantes que estavam em exposição e que estavam abertos para entrada. Não tivemos opção, além de acompanhar os eufóricos meninos nos brinquedinhos.

Rosenborg slot, King’s Garden e Bothanical Garden
O castelo Rosenborg tem 400 anos de história, já serviu como residência da família real e tem um acervo com objetos da família real, incluindo as jóias da Coroa Dinamarquesa. Ele fica no mais antigo parque de Copenhagen: o King’s Garden. É um parque lindo, com parquinho para as crianças, uma estátua famosa de Hans Christian Andersen e onde acontecem o Copenhagen Jazz Festival. Bem pertinho fica o Bothanical Garden. Bem menor, mais tranquilo e ideal para um dia mais contemplativo. Tivemos a sorte de chegar na época em que dá pra visitar a Butterfly House! Aqui em casa fez mais sucesso que as jóias da Coroa.

Copenhagen Cooking and Food Festival
Demos a sorte de estar na época deste festival, quando eles fecham ruas e montam mesas enormes, com uma oferta deliciosa de comidas típicas. Outra coisa imperdível em Copenhagen são os hot dogs. Típica comida de rua deles e deliciosos! Muito mais baratos do que uma refeição completa (que não é nada barata por aqui), tem de todos os tipos e faz o maior sucesso com a família toda.

Ambar e lojas de antiguidades
Se você é como a gente e ama uma antiguidade, está no país certo. Tem uma loja mais linda que a outra! É só andar pela cidade e se deliciar. E se você também gostar de ambar (aqui em casa todo mundo tem seu colar ou pulseira), esse também é o lugar. Não são baratas, mas são muito, mas muito lindas e especiais. E mais uma vez treinamos nosso desapego e saímos sem comprar nada.

Christiania
Este foi um passeio que não chegamos a ir. Mas só de saber da existência dele, já deu muita conversa aqui em casa. Christiania é uma comunidade independente e autogestionada, com cerca de 850 habitantes, numa área de 34 hectares no meio da cidade, no bairro de Christianshavn. Ela começou em 1971 com a ocupação de uma área militar abandonada, por hippies, anarquistas, artistas e músicos como uma forma de protesto. De lá pra cá, já houveram muitas controvérsias, mas é muito interessante ver como a abordagem na resolução de conflitos e no respeito pela diferença é bem diferente do que infelizmente andamos vendo ultimamente neste mundo tão polarizado. Tanto aqui como na Holanda vemos que existe um respeito maior por diferenças, mas que vem junto também com uma consciência maior pela comunidade e pelo todo, além de uma noção plena da responsabilidade de cada um.​

por Elisa Roorda em viagem.

Elisa Roorda, 39 anos. Mãe orgulhosa de 3 criaturinhas: Nina, Sofia e Martin. Publicitária pela ESPM, e dona de uma carreira abandonada na área de marketing esportivo. Fundadora do Mamusca, um espaço mágico que segue funcionando nas mãos de outras fadinhas. Pregadora do livre brincar, da conexão, da presença, do encantamento pelo mundo. No momento viajando o mundo com toda a trupe.