Criança tem regra: celular tem limite

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Vivian Wrona Vainzof

Quando demos um celular ao meu filho mais velho, eu não tinha convicção de que era a hora, nem de que a ideia era das melhores que já tivemos como pais. Se por um lado ele já tinha dez anos, por outro lado, ele só tinha dez anos.

Fui ter meu primeiro celular depois dos vinte. Smart fone, só perto dos trinta. Em poucos anos, meu cérebro eletrônico se faz indispensável e, olhando ao redor, estou certa de que a droga do século está na nuvem e o céu está negro.

Estudiosos de renome e pesquisadores muito reputados recomendam adiar o contato das crianças com a tecnologia, prevendo condições tenebrosas. E mesmo assim, é cada vez mais precoce o acesso dos filhos a vídeos, jogos e redes sociais. Há guias, manuais e cartilhas sobre o uso da tecnologia, sugerindo que bebês não assistam conteúdo digital (nem TV) antes dos 2 anos e que jovens só tenham o próprio celular à partir dos 13. Os principais executivos das grandes empresas de tecnologia no Vale do Silício privam seus filhos do acesso às telas por toda a infância e escolhem escolas que privilegiam papel e lápis, quadro negro e mural de avisos até atingirem o Ensino Médio.

Será que é possível seguir toda essa recomendação no nosso tempo?

Tenho inveja de pais que mantém seus limites respeitados. Mas também não posso abrir mão das boas oportunidade que a conversa me dá de refletir e educar.

Negociamos muito antes de eu concordar em ter um filho conectado. Argumentei que os adultos não estão aptos a fazer bom uso da tecnologia e foi ele quem me aliviou: “vocês não tiveram adultos que orientassem e eu tenho”.

Então, quando demos o celular ao meu filho mais velho, fizemos, juntos, nosso acordo de boas práticas: para que serve o celular? Quando é e quando não é oportuno usar? Quais as responsabilidades? O que se ganha e o que se perde com isso? Como encarar os riscos? Quais as consequências?

A conversa não pára. Se o celular fica sempre do lado de fora do quarto, na hora de dormir, o fluxo de aprendizado que essa reflexão desperta, não sai de dentro da gente. Hoje, combinamos de conversar sobre mensagens impróprias que circularam por ali recentemente. Sem alarde, sem mobilização coletiva, estarei de novo presente para acolher e ensinar, para ouvir e ponderar, para descobrir com ele o melhor caminho.

Criança que não sai de casa sozinha, não está preparada para circular desacompanhada pelas ruas virtuais.

O dilúvio é iminente. Eu já escuto as trovoadas. Não podermos poupar os sapatos por medo de desmanchar o penteado.