Cruzada contra os vírus

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Deborah Goldemberg

Eu odeio resfriado e gripes, mortalmente. Odeio-os mais do que tomar multa de trânsito ou pagar imposto de renda. Quando vejo um líquido transparente escorrendo pelo nariz da minha filha, entro em estado de negação total. Deve ser um pingo de chuva (mesmo se estiver dentro de casa)! Imagine, gripe? É apenas um respingo de água da torneira. Aquela torneira do outro lado da cozinha. Ou, benção do santo. Postulo possibilidades, fazendo todo o esforço para acreditar que seja qualquer coisa, exceto, as víboras-malditas das gripes.

Isso porque um dos maiores desafios da maternidade é o estabelecimento de uma rotina. Logo após o nascimento, nem um dia se parece remotamente como o outro. É novidade em cima de novidade, assim como as ondas que surgem umas em cima de outras ondas em dias de tempestade no mar. Até que, após algumas semanas, com muito esforço, conseguimos estabelecer uma tênue e idílica rotinazinha. Passamos a conseguir visualizar como será uma parte do dia, talvez a hora do jantar, do banho e do soninho. De repente, colocamos o neném na cama na hora prevista, ele dorme e tudo parece perfeitamente gerenciável. Ufa…

Até que surgem no horizonte as tais gotinhas abaixo do nariz, como quem não quer nada, mas nós mães sabemos muito bem o que elas significam. Que a nossa rotinazinha será demolida por uma onda brutal. Que não haverá hora do almoço ou jantar, porque o neném vai estar morrendo de dor de garganta e não vai comer nada! Que o resto das horas será para tentar compensar o fracasso alimentar. Que a hora do banho, que havia se tornado tão divertida, vai virar um grande chororô e, pior do que tudo, que o neném não vai dormir de noite. Mesmo com inalação e remedinhos, vai acordar madrugada adentro - e você também.

No dia seguinte, além da exaustão, nada será como antes. O passeio matinal não será possível, porque qualquer ventinho pode piorar o quadro. Será que vento tem mesmo algo a ver com gripes? Melhor não arriscar… ficar de molho em casa. Perderemos a aulinha de música e a visita à casa da madrinha. Lá pelas nove da manhã, depois de fazer um milhão de coisas, olharemos pela janela sem saber o que fazer com o resto das horas do dia até a chegada da noite que nada será além de uma longa tentativa (mal-sucedida) de dormir para chegarmos no próximo dia - o segundo dia da gripe - que pode durar até sete dias!!!

Na última intervenção gripal em nossa vida, resolvi fazer uma reflexão filosófica. Me lembrei de como quando eu ficava gripadas na vida anterior à maternidade, após entregar os pontos e os planos que tinha feito, mergulhava na cama e passa o dia entre cochilos e leituras. Da mesma forma, cogitei, se a gripe dos filhos não poderia também trazer surpresas boas. Sem passeio na praça, sem amigiuinhos, sem atividades programadas, foi uma mera caixa cheia de retalhos coloridos que acabou rendendo um universo todo novo de brincadeiras e risadas para nós. Entre espirros e inalações, criamos cavernas e galinheiros para as bonecas da minha filha. Um universo à parte. Quando vi, estávamos tão próximas que me senti grata ao hiato que a gripe trouxe para a nossa vida, ao romper a teia de normatização da vida.

No próximo espirro, apesar do arrepio na espinha, tentarei lembrar disso e sorrir!​

por Deborah Goldemberg em colunas, Nove meses antes e novas mulheres depois.

Deborah Goldemberg é antropóloga e escritora, autora de Valentia (Ed. Grua, 2012), romance vencedor do PROAC do Governo de SP/2011 e finalista dos prêmios Jabuti e Machado de Assis (Biblioteca Nacional) em 2013. Seu primeiro livro para o público juvenil, Antônio Descobre Veredas (Ed. Biruta), saiu em 2014. Seus livros de estreia foram as novelas Ressurgência Icamiaba (Selo Demônio Negro, 2009) e O Fervo da Terra (Carlini & Caniato, 2009). É curadora na área de literatura indígena, coordena oficinas literárias em espaços culturais como Casa Mário de Andrade, Casa das Rosas, SESC Pinheiros e Livraria Cultura. É fundadora do projeto LITERARÍA de curadoria literária.