De alma lavada

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Vivian Wrona Vainzof

Tinha chovido a noite toda e o dia amanheceu despido. O mar que dormiu verde escuro, acordou desbotado, escondeu a cara na areia. A brisa distraída correu no chão de cimento polido, deixando o piso mais liso naquela manhã.

Os atobás voavam em roda, pontilhando o céu, desviando da chuva e evitando o mar.

As crianças de sangue anfíbio correram para a praia, fizeram castelo. Chutaram bola, deslizaram para dentro da água até os joelhos, molharam a roupa, fizeram que não viram. Caíram no chão para se empanar. Criaram barreira de areia molhada para proteger das ondas as suas construções. Cataram concha.

Depois do vento, correram pela escadaria de pedra que contornava o jardim. Não reclamaram do pedregulho nos pés descalços, nem dos queimados de ontem que ainda ardiam nos ombros. Viram cobra no caminho. Viram sapo, besouro, canário, bromélia, tucano e duende. Viram de tudo. É mais fácil pôr cor na vista quando a vida convida.

De alma lavada, atravessaram a varanda, carregando a praia para dentro dos quartos, a pele gritando de frio e eles tremendo de felicidade. Os lábios roxos eram a cereja enfeitando o bolo da festa.

Os pais, que tinham estado largados nas superfícies estofadas da casa, agora dançavam. Trocaram olhares cúmplices. Gargalharam de olhos fechados, sem moderação e sem fazer barulho. Subiram a voz da Rita Lee na caixa de som e cantaram com semblante manso, em tom de regozijo.

Recomendaram banho quente e a roupa no varal.

Alguém mais ponderado foi buscar o termômetro e o antitérmico. A temperatura baixava e era certo que o dia nasceria desnudo de novo.

Caberia a nós fechar os olhos e permitir se emocionar tudo outra vez.

crédito: Guga Loeb
crédito: Guga Loeb