Despenteando o macaco

Lina Brochmann

E se eu estivesse sozinha na estrada e o pneu do meu carro furasse no final da tarde daquele dia gélido? Até chamar o socorro e receber ajuda, já estaria escuro e eu, batendo os dentes de frio e de medo. Ou pior, se eu estivesse com as crianças, quanta vulnerabilidade.

Uma vez, uns anos atrás, fui convidada para fazer um curso de mecânica para mulheres. Aprendi que não é no posto de gasolina que devemos trocar o óleo, e que a água sempre vai estar baixa se o carro estiver quente. Acho que também ensinaram a trocar o pneu, mas eu não sei se aprendi…. Quem tem marido super-herói acaba não aprendendo um bocado de coisas.

Mas não era tão tarde e eu não estava na estrada, nem estava com as crianças, então respirei aliviada. Eu já tinha sentido a direção resistir numa curva apertada que fiz logo saindo de casa, mas pensei que era o meu braço duro. Dirigi pelo caminho sem notar maiores alterações. Foi só quando já ia voltando pra casa, que um segurança ali perto chamou minha atenção. Apontou para o chão, enxerguei a borracha espatifada no asfalto. Quis correr pra casa, estacionar o carro e esquecer o assunto, mas era tarde, o homem já tinha chamado mais outro e os dois já estavam deitados no chão, resolvendo o meu problema antes de eu pedir. Acanhei. Agradeci efusivamente e desci do carro, pelo menos diminuía o peso da trabalheira que eles teriam por mim. É constrangedor ver alguém te ajudar e não poder dar nenhum apoio, não ter nem ideia por onde começar. Fiquei rondando aquela demonstração de generosidade explícita, agradecendo repetidamente, constrangida e inútil. Será que é uma vergonha ser o sexo frágil em pleno século XXI? Não é que eu não pudesse arriscar colocar em prática a minha única aula de trocar pneu, mas minha calça era branca e eu tinha acabado de fazer as unhas…

Fiquei pensando no que estamos ensinando aos filhos nesses dias de igualdade de gêneros. Aqueles dois homens estavam dando uma mostra de machismo ou estavam sendo apenas gentis? Alguns homens talvez não saibam desdobrar um macaco, não consigam apertar a chave de roda, assim como algumas mulheres provavelmente o fazem com os pés nas costas.

Eu não faço e por isso fui até a esquina para sacar dinheiro e poder retribuir a generosidade. Na volta, o rapaz me entregou uma garrafinha de água e eu desconfiei que, além de educado, ele também pudesse ler pensamento.

Mas e se fosse um homem no meu lugar, eles não seriam tão disponíveis assim?

Sem sexismo. Sou mesmo a favor das teorias de que lugar de mulher é onde ela quiser, e à propósito, de homem também. Só acho que às vezes, o feminismo está sendo confundido com histeria e aí, não tem macaco dobrado ou penteado que dê conta do recado.