Dia a dia do lockdown em Madri

Andrea Piazza

Sou brasileira, tenho cidadania espanhola e moro em Madri há menos de 1 ano, com meus filhos, de 17 e 15 anos. Eles estudam numa escola internacional, mas que tem muitos alunos espanhóis também. Vivemos numa região bem central da cidade, onde podemos fazer tudo a pé e não precisamos de carro. Além de ser uma cidade muito segura, Madri tem um excelente sistema de transporte coletivo conectando toda a cidade. Meus filhos têm liberdade de ir e vir, sem a preocupação com segurança e violência tão comum no Brasil. Madri também é uma cidade muito alegre, como outras cidades da Espanha em geral. Tem ótimo clima, dias ensolarados a maior parte do ano, ruas sempre cheias, restaurantes ao ar livre e ótimas opções culturais ao longo do ano. É uma das cidades mais visitadas da Espanha e recebe muitos turistas o ano todo.

Em dezembro viajamos para aproveitar as férias de 2 semanas de final de ano e voltamos a tempo de comemorar o tradicional Dia de Reis Magos, 6 de janeiro. Um pouco depois as noticias do vírus começaram a se intensificar com o lockdown de Wuhan seguido pelos casos no norte da Itália. O que antes parecia distante e restrito a China começou a ficar muito mais próximo. Ainda assim ninguém tinha percepção da dimensão que o coronavirus ia ter. À medida que os casos começaram a crescer aqui da mesma forma que na Itália, o governo Espanhol estabeleceu o estado de alerta e o lockdown. Alguns dias depois da Itália, só que mais rigoroso.

Ninguém podia sair de casa, a não ser que fosse para trabalho essencial, que requeria uma autorização. Só podíamos ir ao supermercado e a farmácia. Tudo estava fechado. Escolas, lojas, escritórios, restaurantes, parques, não tinha onde ir. Não era permitido tampouco ir a segundas residências, de praia ou campo. As estradas foram bloqueadas. Meus filhos passaram para aulas online, seguindo o horário integral das aulas presenciais. Maiores de 14 anos podiam sair para compras, como os adultos. Os menores não podiam sair nenhuma hora. Não era permitido fazer exercício na rua. Tudo ficou deserto. Foram dias muito difíceis.​

Lockdown em Madri (cervo pessoal)
Lockdown em Madri (cervo pessoal)

As ruas esvaziaram e a cidade ficou triste com dias lindos de céu azul. A rotina mudou radicalmente. A preocupação com higiene de tudo que entrava em casa era insana. Não atendíamos a porta e quando recebíamos delivery pedíamos para deixar tudo do lado de fora. Não conseguia comprar mascara, luvas ou álcool gel. As noticias eram muito ruins, a cidade não tinha capacidade para lidar com a quantidade de mortos. Ninguém sabia o que estávamos de fato enfrentando e qual era o real risco de contagio. O supermercado reabriu com faixas no chão para indicar a distancia que as pessoas deviam manter. O estado de alerta inicialmente de 15 dias, decretado em 14 de março, ainda está em vigor e deve ir ate junho.

Agora estamos passando pela “desescalada” que é o processo gradual de reabertura e retomada das atividades. Madri teve o maior numero de casos e mortes na Espanha e foi uma das ultimas cidades a poder avançar de fase no processo de reabertura. Primeiro alguns serviços voltaram com hora marcada. As pessoas passaram a poder sair para passear ou fazer exercícios em horários predeterminados do dia. Exercícios individuais são permitidos entre 6 e 10 da manhã e entre 20 as 23h da noite, passeios para pessoas de idade entre 10 e 12h, e passeios com crianças entre 12 e 19h. Nos finais de semana algumas ruas são fechadas e usadas como áreas de lazer para caminhar, correr ou andar de bicicleta. Hoje abriram os parques e também os restaurantes com áreas ao ar livre, assumindo capacidade limitada a 30%, medidas de higiene e distancia entre mesas. Na fase 2 a capacidade pode subir para 50%. Já as aulas nas escolas devem ser retomadas apenas no segundo semestre, mas ainda não esta claro como vai ser.