Disciplina Positiva: Foco em soluções

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Lia Vasconcelos

Focar nas soluções não exige só vontade e esforço. A mudança de perspectiva exige de nós, adultxs, uma alteração de mentalidade e do olhar. Estamos muito acostumadxs a sempre pensar nas consequências de uma atitude ou comportamento, mas não nas soluções para que aquilo não se repita. Em seu livro, “Disciplina Positiva”, a norte-americana, Jane Nelsen, conta uma história muito boa para ilustrar a diferença entre pensar nas consequências e nas soluções. Ela diz que visitava uma escola e frequentava as reuniões de classe dos alunxs. Uma reclamação era recorrente: algumas crianças sempre se atrasavam para voltar do recreio.

Ela notou que todas as sugestões dadas até então para resolver a questão eram punitivas. Um dia ela se deu conta disso e perguntou para a classe: “o que vocês acham que aconteceria se vocês pensassem nas soluções para esse problema em vez de focar nas consequências?”. O entendimento das crianças foi imediato. Se antes propunham coisas como “fazê-las escrever seus nomes no quadro”, “perderem o intervalo inteiro no dia seguinte” e ” fazê-las ficar na escola depois da aula o mesmo tempo que se atrasaram”, quando passaram a pensar nas soluções, propuseram coisas como: “todo mundo gritar junto: ‘sinal!’”, “alguém poderia dar um tapinha no ombro delas quando o sinal tocasse” ou ainda “aumentar o volume do sinal”. A diferença entre essas propostas é enorme, né? A primeira soa como punição - o foco está no passado. Já a segunda foca em soluções e ajuda xs alunxs a fazer melhor no futuro. Os erros são vistos como oportunidades de aprendizagem. Se a primeira lista foi feita para magoar, a segunda foi feita para ajudar.

Se o foco da educação tradicional está em ensinar as crianças o que não fazer, a Parentalidade Positiva ensina às crianças o que fazer. Nesse caso, elas são participantes ativas do processo e não receptoras passivas e quando elas se sentem melhor, elas agem melhor (por que, afinal, “de onde tiramos a absurda ideia de que, para levar uma criança a agir melhor, precisamos antes fazê-la se sentir pior?”, como nos pergunta Nelsen). Num ambiente em que se foca em soluções, disputas de poder tendem a diminuir. Além disso, as crianças são ótimas solucionadoras de problemas e, geralmente, dão soluções bastante criativas e úteis, basta estarmos abertxs para ouvi-las.

Para saber se estamos sugerindo uma solução e não uma punição para um comportamento, basta pensarmos: está relacionada ao problema? É respeitosa? É razoável? É útil? Essas quatro perguntas podem ajudar na hora da dúvida. Voltando ao exemplo dos alunxs, vejam se as soluções propostas por elxs respondem a essas quatro questões e observem se as punições pensadas respondem a essas perguntas.

Nesse contexto cabe também falar de outro conceito da Parentalidade Positiva que é o “tempo positivo” cujo objetivo é ajudar as crianças (e xs adultxs) a se sentirem melhor e não fazê-las se sentirem pior. Ao contrário do que podemos supor, o “tempo positivo” não se equivale ao castigo ou ao cantinho do pensamento. O “tempo positivo” é uma habilidade de vida eficaz que pode fazer toda a diferença quando os sentimentos transbordam e o conflito é iminente. E por que? Porque quando transbordamos, acessamos nosso cérebro reptiliano que nos dá sempre duas opções: disputar o poder ou fugir. O “tempo positivo” nada mais é do que a ideia de dar um tempo para nos sentirmos melhor para que possamos resolver os problemas baseadxs em proximidade e confiança em vez de distância e hostilidade, como nos ensina a mestre Nelsen. É mais fácil ser gentil e firme ao mesmo tempo quando estamos mais calmxs, não é? Importante entender que o “tempo positivo” não é uma recompensa pelo mau comportamento e nem uma punição disfarçada, mas, de fato, um tempo para os ânimos se acalmarem. Nesse processo, adultxs e crianças aprendem, cada um à sua maneira, a melhor forma de se acalmarem.

Adotando o “tempo positivo”, nós modelamos o comportamento e mostramos que tudo bem nos afastarmos um pouco antes de pensarmos nas soluções para que uma atitude ou comportamento não se repita mais. Outras dicas para introduzir essa ideia de “tempo positivo” é permitir que as crianças criem sua própria área para dar esse tempo (deixe-as escolher um lugar da casa e decorar como quiserem, por exemplo), desenvolver um plano com antecedência explicando para elas que vocês poderiam achar útil dar um tempo para que se sintam melhor antes de resolver um problema e, por fim, ensinar às crianças que quando elas se sentem melhor, elas estão mais aptas a pensar em uma solução, caso ainda exista uma questão a ser resolvida.

Sair do piloto automático é o convite recorrente da Parentalidade Positiva. A mudança não é fácil porque não estamos acostumadxs a ver as coisas sob essa perspectiva, mas depois que nos habituamos fica a dúvida do porquê não fizemos assim desde sempre.

—> Leia todos os textos da coluna Parentalidade Positiva, assinada por Lia Vasconcelos.

por Lia Vasconcelos em colunas, parentalidade positiva.

Lia Vasconcelos é mãe de duas meninas e originalmente formada em Jornalismo e Ciências Sociais. Se encantou com os modelos da disciplina positiva e da parentalidade positiva e se certificou pela Positive Discipline Association (EUA) e pela Escola da Parentalidade (Portugal). Me encontre no @liavasco_educacao ou escreva para liavasco75@gmail.com para informacões sobre workshops.