Do tipo obediente

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Vivian Wrona Vainzof

Apaguei a luz mas uma ideia fora de alcance ainda corre pela casa enquanto todos dormem. Todos menos eu. Eu e umas ideias fugidias, que se escondem, mas sei que acenam pra mim, me chamam com aquela voz aguda de ideia fugitiva. Quase não ouço elas cochichando lá do fundo de onde não vejo. Rodo atrás delas que nem carrossel mas não alcanço. Também não durmo, porque elas não deixam. E eu sou do tipo obediente.

Antes de oito e meia eu sempre estava na cama sem ninguém chamar. Eu gostava de usar uma camisola longa, que eu segurava uma prega do cetim lilás para não pisar na barra com o pé descalço. Lá ia eu com pose de princesa apressada. Acendia o abajur, deitava na cama e fechava os olhos com força. Tudo o que eu queria era dormir depressa, antes da casa toda apagar. Todo dia eu prendia as pontas do lençol debaixo do colchão, desfazia as rugas, me esticava com ferro de passar e deitava asseada dentro do cobertor, deixando os braços de fora, e acordava do mesmo jeito. Esse ritual servia para eu adormecer antes que os fantasmas entrassem na minha cabeça, e acordasse antes que saíssem.

Meus pais se perguntavam se eu era feliz, e eu era. Eu não passava noites em claro procurando ideia!

Por conta dessas noites sem dormir, ou de outras, mal dormidas, tenho acordado com torcicolo. Precisei me tratar e

procurei o Dr Maciel. Tentei obedecer as recomendações que ele me fez. Troquei meus travesseiros, mudei a posição do pescoço, dos braços e dos quadris na hora de deitar. Também estou me esforçando para sentar sempre sobre os ísquios, nunca cruzando as pernas, e sem espaldar. Faço, sem regularidade nem disciplina, os exercícios que ele recomendou. Ele me manda andar na esteira só de meias e preciso encontrar um horário em que a academia esteja vazia, porque já estão me olhando torto. E como não estou melhorando, tentei outro caminho. Mais macio, quem sabe?

Essa semana estive em outro consultório, para tentar me curar das dores na coluna. A conduta foi bem diferente, ele não me orientou a fazer coisa alguma. Num atendimento só, me entortou toda, mexeu nos meus encaixes, ajeitou mandíbula, ombros, externo e cabeça do fêmur. Foi uma sessão de massinha com meu esqueleto vivo. Quando acabou, ele se distanciou um pouco e me olhou. Fez uma cara de mestre quando analisa sua obra semi acabada, inclinou o pescoço, colocou o dedo indicador na bochecha e o polegar embaixo do queixo e decretou:

- você está errada há muito tempo. Desde menina você já estava errada…

E enquanto ele me dissecava com seu olhar clínico, eu lembrei de quando eu fingia dormir no carro para chegar em casa no colo, e chupava o dedo escondida, porque já estava grande pra isso. Lembrei das tardes assistindo à TV, e a corrida para o quarto quando escutava a maçaneta da porta. Lembrei que eu fingia ser canhota quando escrevia na escola, e que, por isso ou não, eu uso o relógio na mão direita desde os 12 anos. Lembrei que queria ser menino e escolhi o nome David, mas esse era um segredo só meu.

Lembrei dos dias em que amanheço com os travesseiro no chão porque preferi dormir sem fita métrica e sem saber da distância entre o ombro e minha cervical. Lembrei dos chocolate que eu como quase todos os dias, mesmo quando faço regime. Lembrei de quando sugeri a meu filho inventar uma história por dia sobre a sua cara esfolada e ele criou muitas. E ao outro, subir na árvore da escola quando ninguém estivesse olhando, porque essa é uma das coisas que ele mais gosta de fazer na vida.

Não sei se sou tão errada assim ou se esse Dr. macio é que estava enganado. Mas estar sempre certa deve fazer mal às costa e algumas desobediências talvez não sejam tão má idéia.

Me lembrei das palavras que ainda escrevo com trema, com hífen e com os acentos nos seus lugares originais. Porque idéia sem acento, para mim, tem cara de idéia sem luz e idéia é coisa pra manter a gente acesa no escuro.